Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 224 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

Penso em Ti no Silêncio da Noite Quando Tudo É Nada

PENSO EM TI NO SILÊNCIO DA NOITE

QUANDO TUDO É NADA

Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada, E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio, Então, sozinho de mim, passageiro parado

De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti. Todo o passado, em que foste um momento eterno, É como este silêncio de tudo.

Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,

É como estes ruídos,

Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser É como o nada por ser neste silêncio noturno.

Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,

Quantos amei ou conheci,

Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa, Ou um povo omitido pelo mundo,

E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite Branco e negro de campas e árvores e de luar alheio E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.