Poesia de Álvaro de Campos
Penso em Ti no Silêncio da Noite Quando Tudo É Nada
PENSO EM TI NO SILÊNCIO DA NOITE
QUANDO TUDO É NADA
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada, E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio, Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti. Todo o passado, em que foste um momento eterno, É como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser É como o nada por ser neste silêncio noturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa, Ou um povo omitido pelo mundo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite Branco e negro de campas e árvores e de luar alheio E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.