Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 6 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

A Coisa Estranha e Muda em Todo o Corpo

A COISA ESTRANHA E MUDA EM

TODO O CORPO

A coisa estranha e muda em todo o corpo,

Que está ali, ebúrnea, no caixão,

O corpo humano que não é corpo humano

Que ali se cala em todo o ambiente;

O cais deserto que ali aguarda o incógnito

O assombro álgido ali entreabrindo

A porta suprema e invisível;

O nexo incompreensível

Entre a energia e a vida,

Ali janela para a noite in nita...

Ele — o cadáver do outro,

Evoca-me do futuro

Eu próprio assim, eu mesmo assim...

E embandeiro em arco a negro as minhas esperanças Minha fé cambaleia como uma paisagem de bêbedo, Meus projetos tocam um muro in nito até in nito.