Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 64 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Barrow-On-Furness

I

Sou vil, sou reles, como toda a gente 

Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente. 

Quem diz que busca é porque não os tem. 

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu ser presente,

Ébrio, por intervalos, de um Além. 

Como todos não creio no que creio. 

Talvez possa morrer por esse ideal. 

Mas, enquanto não morro, falo e leio. 

Justi car-me? Sou quem todos são... 

Modi car-me? Para meu igual?... 

— Acaba lá com isso, ó coração! 

II

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,

Eh! Tanta explicação que nada explica!

Estou sentado no cais, numa barrica,

E não compreendo mais do que de pé. 

Porque o havia de compreender? 

Pois sim, mas também porque o não havia?

Águia do rio, correndo suja e fria, 

Eu passo como tu, sem mais valer... 

Ó universo, novelo emaranhado, 

Que paciência de dedos de quem pensa

Em outra coisa te põe separado?