Poesia de Álvaro de Campos
n
Gritos pelos vales.
Que a morte não tem importância nenhuma.
Que a morte é um disparate,
Que a morte é um □
E que se tudo isto é um sonho, é a morte um sonho também. n
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi! Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser, Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é a ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos, Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstrato, em real, em perfeito
Em de nitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida
Faz partir, que eu quero partir…
Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por m eu te ouvirei;
Fremir do costado pela pulsação das máquinas — Meu coração no bater nal convulso —, Toque das vigias, suspiros do porto
□
Lenços a acenarem-me do cais em que cam… Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!