Poesia de Álvaro de Campos
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Hela-hô-hôôô... helahô-hôôôôô....
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Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe. Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos; Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras, para antes formar o voo Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino: Por que atalhos de sombra que caminho buscas.
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada noturna
Donde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde, E não há luar sobre as indecisões…
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de Misericórdia,
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e a nal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império... Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação… Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda... E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo? Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê? Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme… Clarins subitamente mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas Para onde, por que caminho, para ao pé de quem? Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê? (Títiro, a tocar auta e os campos de Itália sob César Augusto Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos E que dor é esta, do antigo e do atual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Títiro a tocar auta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat júri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes Sob as fortalezas antiquissimamente teriam.
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos, Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros... Oh o maior horror de terem cessado os clarins.
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento Nesta profunda palidez dos que mataram?
Quem é que vem? O que se vai dar?
Quem começa a soluçar na calma noite intranquila, Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!... Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó
Ó dor da indecisão com agitações inexplicáveis á superfície de águas estagnadas… Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens... Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos... (Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar...
E tu, amor, és a única realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer... E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, nada, senão coisas sem aonde, mas que percebemos Lágrimas nas ruas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito,..) A guerra, a guerra, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente. Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real E as suas consequências, não coisas contadas em livros. Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em ato e a mesma merda no meio disto tudo! Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações E os sons orescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria.
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque.. O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste, A morte... E o contrário disto tudo e a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado, não me mexo e sofro.
2/8/1914