Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 129 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Hoje que Tudo Me Falta Como Se Fosse o Chão

HOJE QUE TUDO ME FALTA COMO SE

FOSSE O CHÃO

Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,

Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos — Necrose da alma,

Apodrecimento dos sentidos.

Tudo quanto tenho feito, conheço-o claramente: é nada. Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes. Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito. Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,

Meu Éden agasalhando o chá noturno,

Minha colcha limpa de menino!

O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido. Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter... Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.

Custa-me a respirar para sustentar a alma.

Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade. Minha grinalda de poeta — eras de ores de papel, A tua imortalidade presumida era o não teres vida. Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente, Sem capotinho mas com fama,

Sem dados mas com Deus —

Tabuleta [de] vinho falsi cado na última taberna da esquina!