Poesia de Álvaro de Campos
Hoje que Tudo Me Falta Como Se Fosse o Chão
HOJE QUE TUDO ME FALTA COMO SE
FOSSE O CHÃO
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos — Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito, conheço-o claramente: é nada. Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes. Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito. Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá noturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido. Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter... Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade. Minha grinalda de poeta — eras de ores de papel, A tua imortalidade presumida era o não teres vida. Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente, Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsi cado na última taberna da esquina!