Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 273 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Talves Não Seja Mais do que o Meu Sonho

TALVES NÃO SEJA MAIS DO QUE O

MEU SONHO

Talvez não seja mais do que o meu sonho...

Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro, Loura débil...

Esse olhar para mim casual como um calendário... Esse agradecer-me quando a não deixei cair do elétrico Um agradecimento...

Perfeitamente...

Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve De coisas que não chegou a haver,

Há gente que nunca é adulta sem [...]!

Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca — E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada. Loura débil, gura de inglesa absolutamente portuguesa, Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci... É claro que não me importo nada contigo

Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo, Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo

Uma poesia de superfície,

Uma coisa a mais no a menos da impro cuidade da vida... Loura débil, feliz porque não és inteiramente real, Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real, E nada que vale a pena ser real vale a pena.

25/1/1929