Poesia de Álvaro de Campos
Estou Vazio Como Num Poço Seco
Estou vazio como um poço seco.
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma. Tampa no esforço imaginativo!
EU CANTAREI
I
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me zer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento. II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo, E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro, E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá Canto também, dormindo transparente e calado.