Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 117 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

Estou Vazio Como Num Poço Seco

Estou vazio como um poço seco.

Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma. Tampa no esforço imaginativo!

EU CANTAREI

I

Eu cantarei,

Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,

Eu cantarei,

Quando o alto-dia me zer fechar os olhos,

Eu cantarei,

Quando o crepúsculo limar as arestas,

Eu cantarei,

Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.

Eu cantarei

E nas estradas ladeadas por abetos,

Nas áleas dos jardins emaranhados,

Nas esquinas das ruas, nos pátios

Das casas-de-guarda,

A Tua Vitória entrará como um som de clarim

E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento. II

Perto da minha porta

Onde brincam as crianças dos outros,

Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo, E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro, E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá Canto também, dormindo transparente e calado.