Poesia de Álvaro de Campos
O Chiado Sabe-Me a Açorda
Corro ao uir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
O CONTO ANTIGO DA GATA
BORRALHEIRA
O conto antigo da Gata Borralheira,
O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,
E depois o Catecismo e a história de Cristo
E depois todos os poetas e todos os lósofos;
E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos, O sol havia lá fora em dias de destino,
E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras. Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.
Que a lenha ardida, cantante porque ardia,
Que o sol dos dias de destino, porque já não há,
Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) □ — Que disto tudo só ca o que nunca foi:
Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente. □ espaço deixado em branco pelo autor