Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 184 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

O Chiado Sabe-Me a Açorda

Corro ao uir do Tejo lá em baixo.

Mas nem ali há universo.

E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.

O CONTO ANTIGO DA GATA

BORRALHEIRA

O conto antigo da Gata Borralheira,

O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões,

E depois o Catecismo e a história de Cristo

E depois todos os poetas e todos os lósofos;

E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos, O sol havia lá fora em dias de destino,

E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras. Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade.

Que a lenha ardida, cantante porque ardia,

Que o sol dos dias de destino, porque já não há,

Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) □ — Que disto tudo só ca o que nunca foi:

Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente. □ espaço deixado em branco pelo autor