Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 209 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Ode Mortal

Tu, Caeiro meu mestre, qualquer que seja o corpo Com que vestes agora, distante ou próximo, a essência Da tua alma universal localizada,

Do teu corpo divino intelectual...

Viste com a tua cegueira perfeita, sabes o não ver... Porque o que viste com os teus dedos materiais e admiráveis Foi a face sensível e não a face siognomónica das coisas Foi a realidade, e não o real.

É à luz que ela é visível,

E ela só é visível porque há luz,

Porque a verdade que é tudo é só a verdade que há em tudo E a verdade que há em tudo é a verdade que o excede! Ah, sem receio!

Ah, sem angústia!

Ah, sem cansaço antecipado da marcha

Nem cadáver velado pelo próprio cadáver na alma Nas noites em que o vento assobia no mundo deserto E a casa onde durmo é um túmulo de tudo,

Nem o sentir-se muito importante sentindo-se cadáver, Nem a consciência de não ter consciência dentro de tábuas e chumbo, Nem nada...

Olho o céu do dia, espelha o céu da noite

E este universo esférico e côncavo

Vejo-o como um espelho dentro do qual vivemos, Limitado porque é a parte de dentro

Mas com estrelas e o sol rasgando o visível

Por fora, para o convexo que é in nito...

E aí, no Verdadeiro, Tirarei os astros e a vida da algibeira como um presente ao Certo, Lerei a Vida de novo, como numa carta guardada E então, com luz melhor, perceberei a letra e saberei. O cais está cheio de gente a ver-me partir.

Mas o cais é à minha volta e eu encho o navio — E o navio é cama, caixão, sepultura — E eu não sei o que sou pois já não estou ali...

E eu, que cantei

A civilização moderna, aliás igual à antiga,

As coisas do meu tempo só porque esse tempo foi meu, As máquinas, os motores,

(...)

Vou em diagonal a tudo para cima.

Passo pelos interstícios de tudo,

E como um pó sem ser rompo o invólucro

E partirei, globe-trottrer do Divino,

Quantas vezes, quem sabe?, regressando ao mesmo ponto (Quem anda de noite que sabe do andar e da noite?), Levarei na sacola o conjunto do visto — O céu e de estrelas, e o sol em todos os modos,

E todas as estações e as suas maneiras de cores,

E os campos, e as serras, e as terras que cessam em praias E o mar para além, e o para além do mar que há além. E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,

E Deus, como um Homem, me aparecerá por m. E será o Inesperado que eu esperava — O Desconhecido que eu conheci sempre — O único que eu sempre conheci,

E (...)

Gritai de alegria, gritai comigo, gritai,

Coisas cheias, sobrecheias,

Que sois minha vida turbilhonante...

Eu vou sair da esfera oca

Não por uma estrela, mas pela luz de uma estrela — Vou para o espaço real...

Que o espaço cá dentro é espaço por estar fechado E só parece in nito por estar fechado muito longe — Muito longe em pensá-lo.

A minha mão está já no puxador-luz.

Vou abrir com um gesto largo,

Com um gesto autêntico e mágico

A porta para o Convexo,

A janela para o Informe,

A razão para o maravilhoso de nitivo.

Vou poder circum-navegar por fora este dentro

Que tem as estrelas no m, vou ter o céu

Por baixo do sobrado curvo —

Teto da cave das coisas reais,

Da abóbada noturna da morte e da vida...

Vou partir para FORA,

Para o Arredor In nito,

Para a circunferência exterior, metafísica,

Para a luz por fora da noite,

Para a Vida-morte por fora da morte-Vida.

12/1/1927