Poesia de Álvaro de Campos
O Cão que Veio do Abismo
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo — Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejeto
Que é hoje o meu misticismo.