Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 72 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

b

Ah, tudo isto é para dizer apenas

Que não estou bem na vida, e quero ir

Para um lugar mais sossegado, ouvir

Correr os rios e não ter mais penas.

Sim, estou farto do corpo e da alma

Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se...

Cada momento é um corpo no que nasce...

Mas o que importa é que não tenho calma.

Não tenciono escrever outro poema

Tenciono só dizer que me aborreço.

A hora a hora minha vida meço

E acho-a um lamentável estratagema

De Deus para com o bocado de matéria

Que resolveu tomar para meu corpo...

Todo o conteúdo de mim é porco

E de uma chatíssima miséria.

Só é decente ser outra pessoa

Mas isso é porque a gente a vê por fora...

Qualquer coisa em mim parece agora

□

b

É Carnaval, e estão as ruas cheias

De gente que conserva a sensação,

Tenho intenções, pensamento, ideias,

Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso — Mesmo entre os poetas não me aceitariam.

Às vezes nem sequer ponho isto em verso — E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!

Estou cansado, com cérebro e cansaço.