Poesia de Álvaro de Campos
Com as Malas Feitas e Tudo a Bordo
COM AS MALAS FEITAS E TUDO A
BORDO
I
Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada Digamos adeus com um levantar da alegria ao que ca, Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos, E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais Gozemos uma grande esperança inde nida e arrepiada, Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez, deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjetivo e visível De não cair dentro d’água no meio da emoção. Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos! Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas… Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar, Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços Para lenços que se acenam de outra gente que cou no cais No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos. A amargura alegre da ida.
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo, E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores E tudo é a viagem inde nida que faremos vista através do paladar e do olfato. Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo… E nós não deixamos ninguém…
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, cados no cais e aqui a caminho.
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe, Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs… Partir! Partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir… Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios […], E vamos para o futuro como se fôssemos para o Mistério, Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos, E que proteico e uido Deus é tutelar das partidas? Olha, de longe, já, os guindastes ainda mexendo.
Olha as guras no cais, negras guras, manchadas de lenços que se acenam. Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas às portas deles, O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores… Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma, Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados No cais, tranquilamente, os descarregadores e os guardas- scais! Bebedeira da vida… ligeiro nervoso nas nossas sensações… Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos… A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo…
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah eu quando me interesso nunca estou alheio, nunca olho tranquilo, Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem, Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam, Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços, Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora… Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou pensando com um orgulho estúpido, por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem, Nos pequenos objetos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar… Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram… E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim). Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos… Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios… Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa. E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros… Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor… Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas, Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros… E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha! Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte. Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes.
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, ruas de cidades que desconheço.
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo. Onde se soubesse que acabada a sessão e saindo para fora, Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme signi cando