Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 289 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Viagem

Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho

Fito a ponte pesada e calma...

Cada sonho é um existir de outro sonho,

Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma! Sinto em meu corpo mais conscientemente

O rodar estremecido do comboio. Para?...

Com um como que intento intermitente

De □ mal roda, estaca. Numa estação, clara De realidade e gente e movimento.

Olho p’ra fora... Cesso... Estagno em mim. Resfolgar da máquina... Carícia de vento

Pela janela que se abre... Estou desatento...

Parar... seguir... parar... Isto é sem m

Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca

Chegares, ó ferro em trémulo seguir!

À margem da viagem prossegue... Trunca

A realidade, passa ao lado do ir

E pelo lado interior da Hora

Foge, usa a eternidade, vive...

Sobrevive ao momento □ vai!

Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora □ entra na gare... Range-se... estaca... É agora! Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive

Resvala-me pela alma... Negro declive

Resvala, some-se, para sempre se esvai

E da minha consciência um Eu que não obtive Dentro em mim de mim cai.

□ espaço deixado em branco pelo autor