Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 125 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Grandes São os Desertos e Tudo É Deserto

GRANDES SÃO OS DESERTOS E TUDO

É DESERTO

Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. 

Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma! 

Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida, 

Errei a porta do sentimento, 

Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. Hoje não me resta, em vésperas de viagem, 

Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado) Senão saber isto: 

Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 

Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) Acendo o cigarro para adiar a viagem, 

Para adiar todas as viagens. 

Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade! 

Basta por hoje, gentes! 

Adia-te, presente absoluto! 

Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, E tirem a tabuleta porque amanhã é in nito.

Mas tenho que arrumar a mala, 

Tenho por força que arrumar a mala, 

A mala. 

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. 

Mas também, toda a vida, tenho cado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, 

A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. Tenho que arrumar a mala de ser. 

Tenho que existir a arrumar malas. 

A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. Olho para o lado, veri co que estou a dormir. 

Sei só que tenho que arrumar a mala, 

E que os desertos são grandes e tudo é deserto, 

E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. Ergo-me de repente todos os Césares.

Vou de nitivamente arrumar a mala.

Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;

Hei de vê-la levar de aqui, 

Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto, 

Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! Mais vale arrumar a mala. 

Fim.