Poesia de Álvaro de Campos
Há Cortejos Pompas Discursos
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis… São iluminada à veneziana por luzes contentes
As minhas deceções, e os meus desesperos vão em carrocel Por uma necessidade fatídica do destino.
HÁ MAIS DE MEIA HORA
Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da Enciclopédia Britânica. Ao lado direito —
Ah, ao lado direito! —
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar tudo isto!