Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 11 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

A Partida

a

Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta Sensivelmente começam a pressão de nitiva...

E que tomo consciência exorbitando os meus olhos, Olho pra trás de mim, reparo plo passado fora

Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui,

Considero lucidamente o meu passado misto

E acho que houve um erro

Ou em eu viver ou em eu viver assim.

Será sempre que quando a Morte nos entra no quarto E fecha a porta à chave por dentro,

E a coisa é de nitiva, inabalável,

Sem Cour de Cassation para o nosso destino ndo, Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida, Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada Acorda como uma coisa anterior à infância no nosso partir? Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga, Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa, Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde Se sabe que a trovoada, por estar no auge, decresceu. Viro-me para o passado. Sinto-me ferir na carne.

Olho com essa espécie de alegria da lucidez, completa Para a falência instintiva que houve na minha vida. Vão apagar o último candeeiro

Na rua amanhecente de minha Alma!

Sinal de □

O último candeeiro que apagam!

Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a

Antes que a conheça, amo-a.