Poesia de Álvaro de Campos
A Partida
a
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta Sensivelmente começam a pressão de nitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos, Olho pra trás de mim, reparo plo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui,
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte nos entra no quarto E fecha a porta à chave por dentro,
E a coisa é de nitiva, inabalável,
Sem Cour de Cassation para o nosso destino ndo, Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida, Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada Acorda como uma coisa anterior à infância no nosso partir? Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga, Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa, Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde Se sabe que a trovoada, por estar no auge, decresceu. Viro-me para o passado. Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez, completa Para a falência instintiva que houve na minha vida. Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de □
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.