Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 197 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

O que Há em Mim É Sobretudo Cansaço

O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO

CANSAÇO

O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o in nito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo in nitamente o nito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Í

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...