Poesia de Álvaro de Campos
Depois de Quando Deixei de Pensar em Depois
DEPOIS DE QUANDO DEIXEI DE
PENSAR EM DEPOIS
Depois de quando deixei de pensar em depois
Minha vida tornou-se mais calma — Isto é, menos vida.
Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.
Olho, do alto da janela baixa,
As garotas que dançam a brincar na rua.
O seu destino inevitável
Dói-me.
Vejo-lhe no vestido entreaberto nas costas, e dói-me. Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada Que está calçada de almas?
(Mas a tua voz interrompe-me
— — Voz alta, lá de fora, do jardim, rapariga E é como se eu deixasse
Cair irresolutamente um livro no chão.)
Não teremos meu amor, nesta dança da vida,
Que fazemos por brincadeira natural,
As mesma costas desabotoadas
E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?