Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 95 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Depois de Quando Deixei de Pensar em Depois

DEPOIS DE QUANDO DEIXEI DE

PENSAR EM DEPOIS

Depois de quando deixei de pensar em depois

Minha vida tornou-se mais calma — Isto é, menos vida.

Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.

Olho, do alto da janela baixa,

As garotas que dançam a brincar na rua.

O seu destino inevitável

Dói-me.

Vejo-lhe no vestido entreaberto nas costas, e dói-me. Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada Que está calçada de almas?

(Mas a tua voz interrompe-me

— — Voz alta, lá de fora, do jardim, rapariga E é como se eu deixasse

Cair irresolutamente um livro no chão.)

Não teremos meu amor, nesta dança da vida,

Que fazemos por brincadeira natural,

As mesma costas desabotoadas

E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?