Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 65 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Capítulo III

Deixa de ser novelo o que nos ca... 

A que brincar? Ao amor?, à indif'rença?

Por mim, só me levanto da barrica. 

III

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjetiva! 

Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar? 

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar 

A sombra de um jumento. A vida viva 

Vive a dar nomes ao que não se ativa, 

Morre a pôr etiquetas ao grande ar... 

Escancarado Furness, mais três dias

Te, aturarei, pobre engenheiro preso

A sucessibilíssimas vistorias... 

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo

(E tu irás do mesmo modo que ias),

Qualquer, na gare, de cigarro aceso...

IV

Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo, 

Saiu-me certo, fui elogiado... 

Meu coração é um enorme estrado 

Onde se expõe um pequeno animálculo 

A microscópio de desilusões 

Findei, prolixo nas minúcias fúteis... 

Minhas conclusões práticas, inúteis... 

Minhas conclusões teóricas, confusões... 

Que teorias há para quem sente 

O cérebro quebrar-se, como um dente 

Dum pente de mendigo que emigrou?

Fecho o caderno dos apontamentos 

E faço riscos moles e cinzentos 

Nas costas do envelope do que sou...