Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 285 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Uma Vontade Física de Comer o Universo

UMA VONTADE FÍSICA DE COMER O

UNIVERSO

Uma vontade física de comer o universo

Toma às vezes o lugar do meu pensamento… Uma fúria desmedida

A conquistar a posse como que absorvedora

Dos céus e das estrelas

Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime. Como quem olha um maré

Olho os que partem em viagem…

Olho os comboios como quem os estranha

Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas, Que levam consciências de vida e de si próprias

Para lugares verdadeiramente reais,

Para os lugares que — custa a crer — realmente existem Não sei como, mas é no espaço e no tempo

E têm gente que tem vidas reais

Seguidas hora a hora como as nossas vidas… Ah, por uma nova sensação física

Pela qual eu possuísse o universo inteiro

Um uno tato que zesse pertencer-me,

A meu ser possuidor sicamente,

O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas E as vidas múltiplas das suas almas.