Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 25 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

e

Clarim claro da manhã ao fundo

Do semicírculo frio do horizonte,

Ténue clarim longínquo como bandeiras incertas Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis … Clarim trémulo, poeira parada, onde a noite cessa, Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade … Carro que chia limpidamente, vapor que apita,

Guindaste que começa a girar no meu ouvido,

Tosse seca, nova do que sai de casa,

Leve arrepio matutino na alegria de viver,

Gargalhada subida velada pela bruma exterior não sei como, Costureira fadada para pior que a manhã que sente, Operário tísico desfeito para feliz nesta hora

Inevitavelmente vital,

Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático, Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas Abrem aqui e ali os olhos cortinados a branco… Toda a madrugada é uma colina que oscila,

E refresca ilusões e recordações na minha alma de transeunte. No meu coração banido de epidérmico espírito,

No meu cansado e velado □

□

□ e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras E rumor tráfego carroça comboio eu-sinto sol estruge Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens — Sol dos vértices e nos □ da minha visão estriada, Do rodopio parado da minha retentiva seca,

Do abrumado clarão xo da minha consciência de viver. Rumor tráfego carroça comboio carros eu-sinto sol rua, Aros caixotes trolley loja rua vitrines saia olhos