Poesia de Álvaro de Campos
Vendi-Me de Graça Aos Casuais do Encontro
VENDI-ME DE GRAÇA AOS CASUAIS
DO ENCONTRO
Vendi-me de graça aos casuais do encontro.
Amei onde achei, um pouco por esquecimento.
Fui saltando de intervalo em intervalo
E assim cheguei onde cheguei na vida.
Hoje, recordando o passado
Não encontro nele senão quem não fui… A criança inconsciente na casa que cessaria,
A criança maior errante na casa das tias já mortas, O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio, O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo). O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia… O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia. O homem inconsciente tão diverso e tão estúpido de depois… Não tendo nada de comum com o que foi,
Não tendo nada de igual com o que penso,
Não tendo nada de comum com o que poderia ter sido. Eu…
Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco — Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida.