Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 269 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Símbolos? Estou Farto de Símbolos

SÍMBOLOS? ESTOU FARTO DE

SÍMBOLOS

Símbolos? Estou farto de símbolos...

Mas dizem-me que tudo é símbolo.

Todos me dizem nada.

Quais símbolos? Sonhos.—

Que o sol seja um símbolo, está bem...

Que a lua seja um símbolo, está bem...

Que a terra seja um símbolo, está bem...

Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa, E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas Para o azul do céu?

Mas quem repara na lua senão para achar

Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?

Mas quem repara na terra, que é o que pisa?

Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.

Por uma diminuição instintiva,

Porque o mar também é terra...

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...

Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra, Mas neste poente precoce e azulando-se

O sol entre farrapos nos de nuvens,

Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,

E o que ca da luz do dia

Doura a cabeça da costureira que para vagamente à esquina Onde demorava outrora com o namorado que a deixou? Símbolos? Não quero símbolos...

Queria — pobre gura de miséria e desamparo! — Que o namorado voltasse para a costureira.

18/12/1934