Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 135 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Lentidão dos Vapores Pelo Ar...

Lentidão dos vapores pelo mar...

Tanto que ver, tanto que abarcar.

No eterno presente da pupila

Ilhas ao longe, costas a despontar

Na imensidão oceânica e tranquila.

Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...

O momento embriaga... A alma esquece

Que existe no mover-se... Cais, carnal...

Para os botes no cais quem é que desce?

Que importa? Vamos! Tudo é tão real!

Quantas vidas que ignoro que me ignoram!

Passo por casas, fumo em chaminés

Interiores que adivinho! Choram

Em mim desejos lívidos resvés

Do tédio de ser isto aqui, e ali

Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!

Quantas paisagens vivi!

Planícies! mares! serras

Ao longe! Pareceis com tanta curva,

Pinheirais! Igualdade das culturas!

Dias monótonos de chuva...

Noites de lua nova — canto de ruelas escuras Antros... Dias de sol — de agasalho

De que o olhar abrasa e amodorrado

Mal tem espaço para desejar...

Campos cheios de vultos em trabalho

À

À sombra de um carvalho ali isolado

— — Ah e eu passo! um mendigo a descansar. O longe! O além! O outro! A rota! Ir!

Ir absolutamente! ir entregadamente

Ir sem mais consciência de sentir

Que tem um suicida na corrente

Que passa a dor da morte na água a rir.

Sonho-desolação!

Ó meu desejo e tédio das viagens,

Cansado anseio do meu coração —

Cidades, brumas, margens

De rios desejadas para olhar...

Costa triste, ermo mar

Barulhando segredos,

Negrume cortiçado dos rochedos

D'onde pulsa chiando a espuma na água —

— — Frio pela consciência dos meus nervos

De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!

Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...

Gozo gloriosamente estéril e oco

De encher de memórias de cidades,

De campos fugitivos, feitos pouco

Na fuga do comboio — sociedades

Só pensadas de velha bancarrota

Surpresas no olhar sobre colinas,

Rios sob pontes, águas instantâneas

Grandes cidades através neblinas

Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias... Mares súbitos, através carruagens

Vistos por meu olhar sempre cansado

Tudo isto cansa, só de imaginado Tenho em minha alma o tédio das viagens

Que quero eu ser? Eu que desejo querer?

Feche eu os olhos, e o comboio seja

Apenas um estremecimento a [encher?]

Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja

E já não quer saber o que é viver...

Minuto exterior pulsando em mim

Minuciosamente, entreondulando

Numa oscilada indecisão sem m

Meu corpo inerte... Sigo, recostando

Minha cabeça no vidro que me treme

De encontro à consciência o meu ser todo;

Para quê viajar? O tédio vai ao leme

De cada meu angustiado modo.

Por entre árvores — fumo...

Ó domésticos (...) escondidos!

Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.

Viajo só pelos meus sentidos

Dói-me a monotonia dessa viagem...

Peso-me... Entreolho sem me levantar

Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem

Inutilmente em mim desejos de gozar...