Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 131 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

II - Ah o Crepúsculo o Cair da Noite o Acender das Luzes nas Grandes Cidades

II - AH O CREPÚSCULO O CAIR DA

NOITE O ACENDER DAS LUZES NAS

GRANDES CIDADES

II

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida! Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, Ó do «Sentimento de um Ocidental»!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas. Que nem são países, nem momentos, nem vidas.

Que desejo talvez de outros modos de estados de alma Humedece interiormente o instante lento e longínquo! Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem, Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas

Como um mendigo de sensações impossíveis

Que não sabe quem lhas possa dar...

Quando eu morrer,

Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente, Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,

Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,

Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece, Platão sonhando viu a ideia de Deus

Esculpir corpo e existência nitidamente plausível. Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo. Seja por esta hora que me leveis a enterrar,

Por esta hora que eu não sei como viver,

Em que não sei que sensações ter ou ngir que tenho,

30/6/1914