Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 255 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

j

Heia pra onde, corcel suposto?

Heia pra onde, comboio imaginário?

Heia pra onde, seta, pressa, velocidade

Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora. Heia pra onde, se não há onde nem como?

Heia pra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante Nunca adiante, nem sequer atrás,

Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo, Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma, Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina? Heia pra onde ó tristeza de não realizar o que quero? Heia pra onde, para quê, o quê, sem o quê?

Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, pra onde? Não escrever versos, versos, versos, a respeito do ferro, Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,

Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu. (quando parte o último comboio?)

j

A expressão, aborto abandonado

Em qualquer vão-de-escada da realidade

O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?... O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo pra brinquedos? (Quando é que parte o último comboio, Walt,

Quando é que parte o último comboio?)

Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje […]

A química por baixo do Aqui jaz…

A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta À hora em que era costume ele vir para casa

E o mesmo candeeiro hoje iluminado [.]

E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado. l

Para saudar-te