Poesia de Álvaro de Campos
Tão Pouco Heráldica a Vida
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da ação, no som dos vossos oceanos! Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
1914