Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 157 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Na Véspera de Não Partir Nunca

Ao menos não há que arrumar malas

Nem que fazer planos em papel,

Como acompanhamento involuntário de esquecimentos, Para a parte ainda livre do dia seguinte.

Não há que fazer nada

Na véspera de não partir nunca.

Grande sossego de já não haver sequer

De que ter sossego!

Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros Por, pobre tédio, ter passado o tédio

E ter chegado deliberadamente a nada.

Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,

Como uma oportunidade virada do avesso.

Há quantos meses vivo

A vida vegetativa do pensamento!

Todos os dias sine línea…

Sossego, sim, sossego…

Grande tranquilidade…

Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que poder olhar para as malas fechadas como para nada! Dormita, alma, dormita!

Aproveita, dormita!

Dormita!

É pouco o tempo que tens! Dormita.

É a véspera de não partir nunca!...