Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 282 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Trapo

O dia deu em chuvoso.

A manhã, contudo, esteve bastante azul.

O dia deu em chuvoso.

Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! tristeza? coisa nenhuma?

Não sei: já ao acordar estava triste.

O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.

Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. Bem sei: ser suscetível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Deem-me o céu azul e o sol visível.

Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego.

Até amaria o lar, desde que o não tivesse.

Chego a ter sono de vontade de ter sossego.

Não exageremos!

Tenho efetivamente sono, sem explicação.

O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...

É preciso ser-se criança para os ter...

Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da lha do caseiro,

Polpa de fruta de um coração por comer...

Quando foi isso? Não sei...

No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso