Poesia de Álvaro de Campos
Notas Sobre Tavira
Cheguei nalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. (tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios — Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta. Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto. A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo. Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [?indolentão?]. O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência sicamente no pesar-me mais a mala… De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou toda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é a nal uma cidade estrangeira. (Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me dão é nada) Sou forasteiro, tourist, transeunte.
É claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.