Poesia de Álvaro de Campos
Ora Porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
OS ANTIGOS INVOCAVAM AS MUSAS
Os antigos invocavam as Musas.
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam —
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação — Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido «Uh!» p’ra ouvir um eco,
E não tenho ouvido mais que o visto — O vago alvor escuro com que a água resplandece Lá na inutilidade do fundo...
Nenhum eco para mim...
Só vagamente uma cara, que deve ser a minha, por não poder ser de outro. E uma coisa quase invisível,
Exceto como luminosamente a vejo
Lá no fundo...
No silêncio e na luz falsa do fundo...
Que Musa!...