Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 214 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Ora Porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.

OS ANTIGOS INVOCAVAM AS MUSAS

Os antigos invocavam as Musas. 

Nós invocamo-nos a nós mesmos. 

Não sei se as Musas apareciam —

Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação — Mas sei que nós não aparecemos. 

Quantas vezes me tenho debruçado 

Sobre o poço que me suponho 

E balido «Uh!» p’ra ouvir um eco, 

E não tenho ouvido mais que o visto — O vago alvor escuro com que a água resplandece Lá na inutilidade do fundo... 

Nenhum eco para mim... 

Só vagamente uma cara, que deve ser a minha, por não poder ser de outro. E uma coisa quase invisível, 

Exceto como luminosamente a vejo

Lá no fundo... 

No silêncio e na luz falsa do fundo...

Que Musa!...