Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 152 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

Minha Imaginação É um Arco de Triunfo.

MINHA IMAGINAÇÃO É UM ARCO DE

TRIUNFO.

Minha imaginação é um Arco de Triunfo.

Por baixo passa toda a Vida.

Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camions, Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos, Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida, E no momento em que passam na sombra do Arco do Triunfo Qualquer coisa de triunfal cai sobre eles,

E eles são, um momento, pequenos e grandes.

São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser. O Arco de Triunfo da minha Imaginação

Assenta de um lado sobre Deus e do outro

Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho (segundo se julga) Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos. E, as rápidas intenções que morrem antes do gesto. Eu-próprio, à parte e fora da minha imaginação.

E contudo parte dela,

Sou a gura triunfal que olha do alto do arco.

Que sai do arco e lhe pertence,

E ta quem passa por baixo elevada e suspensa.

Monstruosa e bela.

Mas às grandes horas da minha sensação,

Quando em vez de retilínea, ela é circular

E gira vertiginosamente sobre si-própria,

O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa, E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange, E toda a gente que passa,

E todo o passado da gente que passa,

E todo o futuro da gente que passa,

E toda a gente que passará

E toda a gente que já passou.

Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais

A gura esculpida a sair do alto do arco

Que ta para baixo

O universo que passa.

Mas eu próprio sou o Universo,

Eu próprio sou sujeito e objeto,

Eu próprio sou Arco e Rua,

Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto, Fito de alto, e de baixo to-me tando,

Passo por baixo, co em cima, quedo-me dos lados, Totalizo e transcendo,

Realizo Deus numa arquitetura triunfal

De arco de Triunfo posto sobre o universo,

De arco de triunfo construído

Sobre todas as sensações de todos que sentem

E sobre todas as sensações de todas as sensações... Poesia do ímpeto e do giro. Da vertigem e da explosão, Poesia dinâmica, sensacionista, silvando

Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo, Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume.