O Último Homem Bom
Capítulo 83
Kongens Nytorv – Copenhague
Um a árvore de Natal num trenó. Pai e filho em purrando o trenó pela cam ada fina de neve. Niels os observava através do para-brisa do carro que com eçava a em baçar. Ele devia estar na África. Com em orando a véspera de Natal num a piscina, saindo para ver leões no Dia de Natal e sentindo o oceano Índico acariciar seus pés descalços. Em vez disso o que ele sentia era um frio desagradável subindo do chão do carro de Hannah.
– Você quer que eu dirij a? – perguntou ela.
– Não, está tudo bem .
O verm elho do sem áforo passou para verde. Niels engatou a prim eira, soltou a em breagem e os pneus dianteiros deslizaram pela neve. Durante alguns segundos ele perdeu o controle do veículo, m as depois levou-o para a direção certa e eles seguiram . Controle? No m om ento Niels sentia que qualquer coisa podia acontecer e ele não seria capaz de fazer nada. Se soltasse o volante suas m ãos com eçariam a trem er e ele desm oronaria chorando, bastando para isso que Hannah o tocasse. Ela não o tocou, e ele continuou segurando firm e a direção. Eles seguiram assim . Cruzaram a ponte entre os lagos. Passaram por Kongens Have. Até chegarem a Kongens Ny torv nenhum deles tinha dito um a única palavra, m as os dois olharam para um Papai Noel que cam inhava com um cortej o de crianças.
No m eio da praça, cartazes de um m etro e m eio de altura tinham sido afixados, m ostrando centenas de lugares da Terra que corriam perigo de desaparecer em razão da m udança clim ática. Dentro do carro eles ouviam bem baixa a voz de um hom em com um m icrofone que falava para um grupo reduzido: “Mais de setecentos m il trabalhadores ganham a vida com a produção de chá em Sri Lanka. A seca vai destruir toda a sua produção”.
O trânsito parou. As pessoas carregavam pela praça suas com pras de Natal. Passavam pelos cartazes das ilhas Salom ão, pouco m ais de dois m etros acim a do nível do m ar, onde a população vivia de coco e peixes. Rum avam para os antiquários de Bredgade e no cam inho passavam pelas fotos ilum inadas do lago Chad, cuj o processo de evaporação transform aria m ais um canto da África num a desolação de poeira e areia. O trânsito com eçou a andar de novo. Hesitantem ente, de m odo incerto, com o se todos os m otoristas na praça estivessem pensando em tom ar a dianteira da luta: desligar o m otor, j ogar fora a chave do carro e tentar salvar as ilhas Salom ão. No últim o m inuto os m otoristas m udaram de ideia e os carros seguiram norm alm ente. Se ficassem m uito quietos poderiam ouvir o últim o coco cair do galho e flutuar para o m ar que pretendia tragar tudo.
Hannah rom peu o silêncio:
– Para onde nós vam os? – Ela falou olhando pela j anela. Com o se a sua pergunta não estivesse sendo feita para Niels, e sim para toda a hum anidade.
– Não sei.
Ela olhou para ele e sorriu.
– Este dia inteiro... Sinto m uito, Hannah.
– Você não precisa se desculpar.
– Eu só gostaria de lhe pedir um a últim a coisa.
– O quê?
Ele hesitou.
– Acho que não vai dar para ficar sozinho esta noite. – Ele pigarreou. Aquilo pareceu totalm ente errado. Soou com o um convite. – Quer dizer – resm ungou ele –, não é nada...
– Tudo bem . Eu entendo.
Ele olhou para ela. Ela realm ente entendia.
– Tudo bem para você? Eu tenho um bom sofá-cam a. Poderíam os tom ar um a taça de vinho.
Ela sorriu.
– Sabe de um a coisa? Acabei de notar isto. Gustav nunca m e disse três coisas: “Não sei”, “Sinto m uito” e “Tudo bem para você?”.