O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 19 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 13

Polizia di Stato – Veneza

O pacote estava na m esa. Muito provavelm ente o único registro do que havia acontecido quando um dos assassinatos foi com etido. Tinha sido quase im possível obtê-lo, m as ele havia conseguido.

Tom m aso di Barbara esfregou os olhos e então olhou para o pacotinho m uito bem em balado, na m esa da sala de reuniões. Ele rastreara m uitas vítim as, m as não tinha posto a m ão em nenhum a pista para encontrar o assassino.

Parecia que o com issário Morante havia resolvido não vir trabalhar sozinho. Tom m aso ouviu os passos deles no hall. Passos de autoridades andando ritm icam ente. Na m úsica um tem po unificado é bom , m as quando aplicado ao andar hum ano é aterrorizante, pensou Tom m aso. Quando as pessoas andam num único ritm o é porque vão fazer algo brutal dem ais para estarem sozinhas. A porta abriu. O com issário se sentou e antes m esm o de olhar para Tom m aso encheu copos de água para si m esm o, para o gerente de pessoal e o hom em do continente, que Tom m aso não conhecia. Di Barbara se esforçou para parecer o m ais saudável possível, um a vez que estava febril e com dor de cabeça.

– Que noite difícil! Com a viúva do insuflador de vidro – disse o com issário.

– Ela confessou? – indagou Tom m aso.

– Confessou. De m anhãzinha. Esperou até chegar um padre j unto com o Flavio.

– Foi por causa de um a apólice de seguro?

– Não, não existia seguro de vida. – O com issário lim pou a garganta e então m udou de assunto. – Tom m aso, agora vou lhe perguntar pela últim a vez.

– Fui eu – foi a resposta im ediata de Tom m aso.

– Foi você?

– Fui eu quem contatou as autoridades chinesas. Pedi que elas m e m andassem a fita. Ela pode conter inform ações de grande im portância.

O com issário elevou a voz:

– Sem autorização, você usou canais oficiais para m andar alertas para Kiev, Copenhague e um a longa lista de outras cidades.

Tom m aso deixou de prestar atenção. Perguntou-se com o o com issário tinha descoberto. Certam ente alguém o delatara. Ou então eles estavam de olho nele havia m ais tem po do que ele im aginava.

Tom m aso tentou novam ente explicar.

– Com o j á lhe disse, esses assassinos têm seguido um padrão específico, e ainda haverá outros.

Silêncio. Alguém lim pou a garganta.

– Mas Tom m aso – disse o com issário –, você contatou a nossa em baixada em Nova Delhi e conseguiu que eles m andassem um hom em em Mum bai procurar indícios.

– Não indícios. Um econom ista indiano tinha sido assassinado.

O com issário prosseguiu com o se Tom m aso não tivesse falado.

– Você pediu às autoridades chinesas que nos entregassem m aterial. E esteve em contato com a Interpol.

– Porque eles estão tratando de um caso igual ao de Mum bai! Dê um a olhada nos com unicados. Eu só lhe peço isso. Ouça o que eu estou lhe dizendo. Eu tam bém fiquei pasm o no início. Já faz alguns m eses que eu vi pela prim eira vez a foto que a Interpol nos m andou. No início era apenas um corpo com um a grande tatuagem . Depois eu com ecei a estudar os docum entos. Pedi à Interpol que m e m andasse as fotos na alta resolução original.

– Você pediu a eles que lhe m andassem m ais m aterial? – O com issário balançou a cabeça.

Tom m aso desistiu dele e se virou para o hom em à direita, o hom em que ele não conhecia. Provavelm ente um a alta patente do continente.

– Prim eiro houve um a vítim a de assassinato. Depois, duas. Então houve outro denom inador com um , além da m arca nas costas. Os dois eram envolvidos com aj uda a outras pessoas.

O estranho assentiu com a cabeça, parecendo interessado.

– Eu contatei a Interpol, m as eles disseram que não queriam m exer com aquilo. Disseram que a im portância do caso era m ínim a. Por isso eu com ecei a trabalhar por conta própria.

– Com eçou a trabalhar por conta própria? – repetiu o com issário, novam ente balançando a cabeça.

– É. Fazia isso fora do horário de trabalho. Não negligenciei os m eus deveres. Não perdi um único turno. Usei para a investigação o tem po que era m eu.

– O seu tem po! Você acha m esm o que isso só tem a ver com o seu tem po? Você tam bém usou o tem po dos outros. Um em pregado da em baixada em Nova Delhi, por exem plo.

– Tem os algum a responsabilidade.

O com issário optou por ignorar o com entário de Tom m aso e continuou:

– Am anhã irem os receber um a delegação de visitantes proem inentes. O m inistro da Justiça e alguns j uízes e políticos. O que é que eles vão achar disso? Pense bem .

Tom m aso xingou m entalm ente. Essa era sem pre a única preocupação do com issário: receber a pletora de visitantes proem inentes que chegava na cidade de quinze em quinze dias. Todo m undo queria fazer reuniões em Veneza.

Talvez o com issário tenha percebido que Tom m aso notara a sua vaidade obsessiva. De qualquer form a ele m udou de tática.

– E quanto às pessoas na outra ponta, Tom m aso? Quando você m anda um aviso verm elho alguém precisa tratar dele. Você alertou pessoas em várias cidades. Ancara. Sligo.

– E Copenhague. Há um padrão.

O com issário dirigiu um olhar lastim oso para o hom em do continente. Toda vez que Tom m aso m encionava um padrão ele o olhava. Então o hom em lim pou a garganta e correu as duas m ãos pelo cabelo.

– Um padrão que eu até agora não percebi direito – prosseguiu Tom m aso. – Mas há cerca de três m il quilôm etros entre alguns dos locais de crim e. Eu achava que sim plesm ente era preciso avisar às autoridades policiais que estavam dentro da zona de perigo.

O silêncio se instalou na sala. O com issário voltou a olhar para o estranho, que se sentou em pertigado e falou pela prim eira vez.

– Signor Di Barbara – com eçou ele, depois deixou um a pequena pausa suspensa no ar. – Soubem os que a sua m ãe está gravem ente doente.

Tom m aso franziu a testa. O que um a coisa tinha a ver com a outra?

– Está, sim .

– Ela está num asilo. Não é isso?

– É. As irm ãs franciscanas estão cuidando dela.

– É m uito difícil enfrentar as coisas quando um dos seus pais está agonizante. Eu perdi a m inha m ãe no ano passado.

Tom m aso olhou-o com um ar inquiridor. E depois voltou a olhar o com issário, que estava estudando o tam po da m esa.

– Quando estam os nervosos por causa de situações além do nosso controle, nós às vezes nos lançam os em trabalhos absurdos. Com o um a com pensação m ental. Um a espécie de sublim ação. Você m e entende?

– Desculpe, m as quem é o senhor?

– Dr. Macetti.

– Doutor? Doutor em quê?

– Psiquiatria – disse o hom em , olhando Tom m aso nos olhos antes de continuar. – É perfeitam ente natural e totalm ente aceitável para o cérebro produzir um excesso de atividade. Na verdade essa é um a reação m ais saudável do que ficar passivo. Ou deprim ido. Ou se voltar para a bebida. – O últim o com entário do psiquiatra foi dirigido ao com issário, que m eneou a cabeça ansiosam ente.

– Então o senhor acha que eu estou ficando doido?

Eles sorriram constrangidos.

– Claro que não – disse o psiquiatra. – A sua reação é absolutam ente norm al.

Tom m aso voltou a concentrar a atenção no pacote que estava na m esa. Ainda não fora aberto.

– Talvez fosse m elhor você agora se concentrar na sua m ãe – disse o psiquiatra. – E poderia ir m e ver um a vez por sem ana em Vêneto.

– Nem precisam os usar a palavra “suspensão” – disse o com issário. – Isso parece m uito dram ático. Mas vou ter de lhe pedir para tirar seus pertences da sala e entregar a sua arm a e a identidade policial.