O Último Homem Bom
Capítulo 12
Aeroporto Arlanda – Estocolmo, Suécia
Ao desem barcar, Abdul Hadi m anteve os olhos no chão, evitando a aerom oça. Ele não podia fazer aquilo. Ela pertencia ao Ocidente; era propriedade deles. Não havia razão para pensar diferente. Ela tam bém lhe fazia lem brar dem ais a irm ã, em bora elas não se parecessem nem um pouco. A única sem elhança era a idade, a idade que sua irm ã teria hoj e: trinta e sete anos. Ela estava com oito anos quando m orreu.
No controle de passaporte ele ficou na fila para “todas as outras nacionalidades”. Os cidadãos da União Europeia passavam rapidam ente pela sua entrada privilegiada. A fila de Abdul Hadi não andava. Ele estava habituado àquilo. Um a vez um árabe havia cham ado a fila das outras nacionalidades de “Expresso do Oriente”. Um a m ãe som ali com três filhos estava atrás do vidro num a discussão sem esperança com um funcionário da polícia sueca. Abdul Hadi viu im ediatam ente que ela nunca teria perm issão para entrar. Toda vez que viaj ava, ele assistia àquela m esm a cena: não ocidentais que eram m andados de volta para casa por problem as com o visto, porque o nom e de um dos filhos não estava escrito do m esm o m odo no passaporte e no tíquete do avião, porque não tinham passagem de volta ou porque a foto no passaporte era velha dem ais. A m enor discrepância podia significar entrada negada à pessoa. A Europa era um a fortaleza – o controle do passaporte era a ponte levadiça sobre o canal, e se a pessoa não conhecesse a senha certa seria devolvida ao seu país.
A som ali chorava. Seus filhos estavam fam intos; tinham a pele esticada sobre os ossos da face, algo que norm alm ente se via apenas nas pessoas m uito velhas. Abdul Hadi as olhou, condoído. A m ulher precisou sair para o lado a fim de dar lugar aos outros. O rosto de Abdul Hadi foi obj eto de um intenso escrutínio, tanto a foto no passaporte quanto os seus traços. Enquanto esperava, ele contou os europeus na outra fila que tinham tido perm issão para passar. Cinco. O funcionário deslizou seu passaporte para dentro de um a m áquina. Doze.
– Trabalho?
– Visita à fam ília.
– Tem passagem de volta?
– Tenho.
– Mostre, por favor.
Abdul Hadi olhou para a outra fila. Mais cinco: dezessete. O funcionário inspecionou sua passagem de volta. A entrada da pessoa era negada caso ela não tivesse um a passagem de volta válida. Eles queriam ter certeza de que você voltaria o m ais cedo possível. Vinte e cinco. Abdul Hadi contou até trinta e cinco antes de o funcionário lhe entregar seu passaporte e a passagem sem fazer nenhum com entário.
– Próxim o!
Na área de chegada havia apenas um árabe à espera. Ele e Abdul Hadi trocaram um olhar e então se aproxim aram .
– Abdul?
– Sou eu.
– Bem -vindo. Eu sou Moham m ed. Seu prim o.
Som ente então Abdul Hadi notou a sem elhança. O rosto oval e o cabelo que não sobreviveria na sua cabeça por m uito tem po m ais. As sobrancelhas espessas. Abdul sorriu. Ele não via o irm ão da sua m ãe havia anos. Seu tio havia conseguido se asilar na Suécia havia quase vinte anos e desde então tivera m uitos filhos. Um dos quais estava ali, de pé diante dele. Parecia bem nutrido, relaxado.
– Você é bem alim entado.
– Estou gordo, eu sei. Meu pai tam bém lam enta isso.
– Por favor, diga a ele que eu lhe m ando um abraço.
– Vou fazer isso. Me dê a sua m ala.
Eles rum aram para a saída.
– Por que o seu pai não veio?
Moham m ed parecia estar procurando as palavras certas.
– Ele está doente?
– Não.
– Está com m edo?
– É isso.
Abdul balançou a cabeça.
– Não tem im portância. Nós som os m uitos. Um exército inteiro. Um exército adorm ecido – disse Moham m ed.
– É isso m esm o. Um exército adorm ecido. Mas nem sem pre é fácil acordar os seus soldados – replicou Abdul ao seu j ovem sobrinho, que havia se alim entado tão bem das riquezas do Ocidente.
No assento traseiro do carro havia um pacote. Abdul censurou Moham m ed por ele o ter deixado bem à vista. Além de estar acim a do peso, o exército adorm ecido era descuidado.
– São só fotos – defendeu-se Moham m ed. – Os explosivos estão no porta-m alas.
Abdul estudou as fotos da igrej a. Não a reconheceu.
– Você tem certeza de que é essa igrej a m esm o?
– Absoluta. É um a das igrej as m ais fam osas de Copenhague.
Então Abdul viu algum as das fotos que havia encontrado na internet. Inclusive Jesus na cruz de m adeira. Incom odava-o o fato de a im agem ser destruída na explosão. Mas não era Jesus; era apenas um a im agem , nada m ais que um a im agem . O Ocidente estava sem pre tentando execravelm ente criar im agens, figuras e desenhos com tudo o que fosse sagrado. Autos de Natal, entalhes m oldados m eticulosam ente em m adeira para representar cenas da Bíblia. Estátuas e pinturas. Aquilo não acabava nunca. Os ocidentais tentavam usar im agens para se convencer; é o que eles sem pre tinham feito e ainda faziam . Nos tem pos atuais as im agens não eram nada m ais que publicidade do seu m odo de vida. Não era com o Hadi e seu povo, que podiam sentir o divino dentro de si m esm os. Não precisavam tê-lo diante dos olhos. Ele exam inou novam ente a figura de Jesus. Um a extravagância infantil, pensou.
– Afrouxam os os parafusos. – Moham m ed apontou para a j anela do subsolo, visível na foto da igrej a. – Levam os três noites para conseguir, m as ninguém nos viu. Tem os certeza disso. Todos os quatro parafusos estão frouxos. Você só precisa em purrar a j anela.
O estôm ago de Abdul Hadi roncou. Seu único alim ento fazia m uitas horas tinha sido os am endoins que a aerom oça lhe dera. Voltou a pensar nela por um breve m om ento: o cabelo loiro, a m ão que tocava a sua. Mas não podia pensar nela sem ver sua irm ã m orta. E o m enino que seu pai atropelara e m atara. Duas vidas. Estar sentado ali naquele m om ento custara duas vidas. Era certo ele querer pagar a dívida. Era absurdo pensar na aerom oça. Com o ele gostaria que ela não tivesse lhe sorrido. Não daquele j eito, pelo m enos.