O Último Homem Bom
Capítulo 4
Departamento de Cardiologia, Hospital Nacional – Copenhague
Os pais de Hannah agradeceram à enferm eira quando ela lhes trouxe um pouco de com ida. Hannah j á vinha inalando o arom a havia horas. Carne de porco assada e m olho. Seu pai com eu a porção dele e depois a da esposa, que não fazia outra coisa além de chorar sem nada dizer. Não podemos desperdiçar. Esse era o lem a da vida dele. Um olhar para a sua barriga enorm e faria qualquer um se perguntar se as palavras eram tão sensatas quanto pareciam .
Hannah sem pre achara constrangedor ter o pai por perto. Ela se lem brava horrorizada de quando o casal aparecera na sua defesa de tese de doutorado, sentando-se na últim a fileira de cadeiras do auditório. Seu pai ficou em itindo ruídos desagradáveis; era tão gordo que ocupava um a cadeira e m etade de outra. Sua m ãe não disse nada. Exatam ente com o agora.
Foi um a visita prolongada, em bora se tenha dito pouca coisa. Havia m uito tem po Hannah achava que seus pais tinham desistido dela. Depois da doença e da m orte de Johannes. E depois que Gustav a deixara. Tudo isso era dem ais para eles. Estranho dem ais. Mesm o quando criança, Hannah lhes parecera um a estranha.
Finalm ente eles se foram . Já na porta, um a últim a pergunta: ela queria que eles ficassem m ais um pouco?
– Não, é m elhor vocês irem . Eu quero descansar um pouco.
Os pais de Hannah estavam pretendendo passar a noite ali com seu m eio-irm ão. Com o o velho tinha problem as de coluna e só conseguia dorm ir bem na sua própria cam a, ele dorm iria sentado num a poltrona. Um as poucas horas apenas. No dia seguinte eles voltariam para casa.
– Minha doce m enininha – sussurrou sua m ãe antes de sair. Mas Hannah não era m ais a m enina de ninguém . Nem de Gustav nem dos seus pais.
– Você tem certeza de que não quer nada? – indagou a enferm eira enquanto lim pava os pratos da visita dos velhos.
– Eu quero falar com o Niels.
A enferm eira olhou para ela sem entender.
– Niels Bentzon! O hom em que estava envolvido no acidente.
– Ele está aqui no hospital?
Pasm a, Hannah balançou a cabeça. Devia ser por causa do Natal, pensou ela. Muitas enferm eiras substitutas, m enos experientes, tinham sido recrutadas para os feriados. Finalm ente apareceu um a enferm eira conhecida. Bochechas gorduchas, olhos sorridentes. O nom e dela era Randi? Isso, era Randi.
– Randi? – disse Hannah.
– Você está acordada?
– Eu quero conversar com o Niels.
– Sim , eu sei. Mas ele está cochilando o tem po todo, assim com o você. Tom ou sedativos e por isso está sonolento. Acorda durante dez m inutos e depois cai no sono por três ou quatro horas.
– Nós não poderíam os conversar por telefone? É realm ente im portante.
Randi sorriu.
– A coisa m ais im portante para vocês dois é voltar a ficar fortes. Eu tenho ou não tenho razão? – Ela tom ou a m ão de Hannah. – Mas eu vou tentar providenciar isso. Você gostaria que eu fosse vê-lo? Tentasse m arcar um a hora para vocês se falarem por telefone?
– Gostaria. Por favor.
Randi foi em bora. Hannah olhou pela j anela. Agora estava escuro. Era véspera de Natal no Hospital Nacional. Hannah fechou os olhos até ouvir novam ente passos cautelosos aproxim ando-se. Inicialm ente ela achou que a velhota devia estar perdida. Não usava j aleco branco e havia algo de m uito confuso e distante no seu olhar.
– Hannah Lund? – disse a m ulher aproxim ando-se. – É você?
Hannah não respondeu. Sentia-se lerda e fraca.
– Meu nom e é Agnes Davidsen. – A m ulher estendeu para Hannah a m ão frágil. Mas acabou por apenas lhe afagar as costas da m ão. – Eu poderia falar com você um m om ento?
Ela j á devia ter bem m ais de setenta anos. Sua pele parecia um pergam inho e o cabelo lem brava um a planta m urcha, m as seu olhar era vivo, inteligente.
– Você esteve num acidente de carro, certo?
– Sim .
– Você estava num carro que foi atingido por outro?
– Eu não estava num carro. Eu fui atingida por um carro.
– E isso aconteceu cinco dias atrás?
– Mas o que é que vem a ser isso?
– Eu estou aqui para lhe perguntar sobre a sua experiência de quase m orte.
Hannah sorriu e balançou a cabeça.
– O coração da pessoa não tem de parar para que isso aconteça?
Então foi a vez de Agnes, surpresa, balançar a cabeça.
– Ninguém lhe contou nada sobre o que aconteceu?
– Sim , eles contaram . Disseram que foi... sério.
– Hannah. – Agnes chegou m ais perto. – Você m orreu. Duas vezes.
– Você deve estar enganada.
– Eu não entendo por que eles não lhe contaram . Im agino que isso sej a típico do Hospital Nacional. Durante os feriados parece que a com unicação com os pacientes deixa de existir. Confie em m im : eu sei. Trabalhei aqui toda a m inha vida.
– Eu não entendo.
A enferm eira entrou quando Hannah estava tentando sair da cam a e derrubou o suporte do soro. Alguém com eçou a protestar. Ela quis berrar: “O que é que aconteceu com igo?” Mas o que conseguiu dizer num grito rouco foi:
– Eu quero respostas! Agora!
– Pneum otórax espontâneo.
O m édico havia resolvido que Hannah era “um a das nossas”, com o disse para ela. Não som ente um a acadêm ica m as um a cientista respeitada. Por isso não se recusou a lhe dar um a explicação com plexa.
– As pleuras pequenas da superfície dos pulm ões se rom pem , levando o ar da cavidade pleural e do pulm ão a se com pactar. Muitas vezes essa ruptura se fecha espontaneam ente, e então o pulm ão se expande de novo. – O m édico olhou para ela. – Você precisa descansar?
– Não. Quero ouvir tudo.
– Por causa da colisão houve no seu caso um gotej am ento, que age com o um a válvula para que o ar chegado à cavidade pleural não entre nos pulm ões. Nesse ponto ocorreu o pneum otórax induzido por pressão, com cada vez m ais ar sendo aprisionado na cavidade pleural. Esse é um estado grave e potencialm ente fatal. Mas... – Ele sorriu. – Agora tem os os seus pulm ões novam ente sob controle. Assim com o a contusão no seu coração.
– A velha disse que eu m orri.
– Eu tenho tentado im aginar o que foi que aconteceu de errado para não terem lhe transm itido essa inform ação. Parece que nós precisam os fazer um trabalho m elhor no que diz respeito à com unicação entre m édicos e pacientes durante os feriados.
– É verdade? – Hannah insistiu. – Eu m orri?
Ele respirou fundo, com o se a culpa da parada cardíaca de Hannah tivesse sido dele.
– Morreu. Já deviam ter lhe dito isso há m uito tem po. Eu lhe peço perdão. Seu coração parou. Duas vezes. Da prim eira vez nós conseguim os fazê-lo bater novam ente depois de alguns m inutos. Mas quando eu pus você na m esa...
– Mesa?
– A m esa de operações. Seu coração parou novam ente. Na verdade...
– Ele sorriu e balançou a cabeça. – Nós acham os que você tinha m orrido.
– Por quanto tem po?
– Quase nove m inutos. Isso é extrem am ente raro.
Silêncio.
– Eu fiquei m orta durante nove m inutos?
Ele pigarreou. Olhou para o relógio.
– Você pode confiar na Agnes. Quer dizer, se quiser conversar com ela. Se não, diga a ela que vá em bora. Ela está sentada na sala, esperando você acordar.
– Que dia é hoj e?
– Ainda é véspera de Natal. – Ele sorriu com sim patia. – Im agino que você não terá um grande Natal este ano. Mas nos feriados eles sem pre procuram fazer algo especial na cozinha do hospital.
– Quanto tem po eu devo ficar aqui?
– Vam os ver com o as coisas evoluem .
Ele se levantou com um a expressão estranha, que talvez fosse a sua tentativa de sorrir novam ente.