O Último Homem Bom
Capítulo 31
Helsingør – Dinamarca
Hannah serviu o café derram ando um pouco na m esa. Lim pou com um pano de prato.
– É só isso? – indagou ela.
– É. Vinte e um casos.
– Da Antártica até Caracas. Com desvios para a África e a Ásia. – Por fim ela o fitou. – Teoricam ente poderá haver outros.
– Por que você diz isso?
Ela rem exeu nas páginas até encontrar as que se referiam ao russo.
– Ele é o núm ero trinta e um .
– E?
– Há tam bém um núm ero trinta e três e um trinta e quatro. Russell Young, em Washington, e Raj Bairoliy a, em Mum bai. Mas talvez não pare por aí. E na sequência há lacunas anteriores. – Ela olhou para o m apa. – Tem os Cham a Kiwete no desfiladeiro de Olduvai, na Tanzânia, com o núm ero um . Maria Say wa, no Peru, é o núm ero seis. Am anda Guerreido, no Rio de Janeiro, é o núm ero sete. Ludvig Goldberg, em Tel Aviv, é o núm ero dez. Nancy Muttendango, em Nairóbi, é o núm ero onze. São m uitas lacunas. Onde estão eles?
– Podem aparecer m ais tarde – palpitou Niels.
– Você sabe que o desfiladeiro de Olduvai é o local onde foram encontrados os prim eiros seres hum anos? Foi lá que m ataram o núm ero um , Cham a Kiwete.
Niels lhe dirigiu um olhar perplexo e balançou a cabeça.
– É possível que as m arcas com os núm eros tenham passado despercebidas algum as vezes. Ou que os casos não tenham sido com unicados. Alguns países são tão flagelados pela guerra civil e pela fom e que não têm tem po para dar atenção a assassinatos. Assim , não podem os descartar a possibilidade de que um m édico ou um trabalhador de aj uda hum anitária tenha sido assassinado na Som ália ou em alguns outros lugares. – Ele não sabia dizer se ela estava prestando atenção ou não.
– Mas esse Tom m aso di Barbara parece ser um hom em m uito eficiente. Com o foi que ele conseguiu coletar tanto m aterial?
Hannah olhou para o m apa-m úndi com os vinte e um Xs que indicavam todos os assassinatos com unicados. Um a série de destinos. Um m undo de pessoas assassinadas envoltas na fum aça do seu cigarro. Ela estava totalm ente absorta. Falava em voz alta consigo m esm a, quase cantando as palavras:
– Cuzco, Rio, Tel Aviv, Nairóbi, Johannesburgo, Chicago, Thunder Bay, McMurdo, Pequim ...
– E quanto às datas dos crim es? – perguntou Niels, interrom pendo-a.
– Sete dias entre um e outro. Até onde eu posso ver. – Ela olhou para o m apa. – Sete dias entre os assassinatos.
– Você viu outras sem elhanças quanto à cronologia? Os assassinatos foram com etidos na m esm a hora do dia?
Ela hesitou, pondo o cigarro num pires.
– É difícil dizer. Só uns poucos relatórios de assassinato incluem um a hora específica.
– Eles poderiam ficar em ordem alfabética?
– Espere um m inuto.
– O quê?
Passou-se um m inuto. Hannah estava sentada tão quieta que Niels pensou nela com o um a figura de cera do m useu da Madam e Tussaud.
Finalm ente ela disse:
– Cair da tarde. Tenho quase certeza disso. – Ela folheou as páginas. Niels j á estava quase perdendo a paciência quando ela disse: – Os assassinatos foram com etidos a intervalos de sete dias uns dos outros, sem pre num a sexta-feira e com toda a probabilidade no m om ento em que o sol se punha em cada um dos lugares. Acho que é isso.
– E o que é que isso significa?
Sem resposta.
– E quanto às distâncias entre as cenas dos crim es? – prosseguiu ele. – Três m il quilôm etros. É isso?
Mais um a vez sem resposta. Niels percebeu que os seus com entários a estavam perturbando, m as isso não o deteve.
– Hannah. Os três m il quilôm etros... Ou você vê algum a outra ligação?
Ela levantou a cabeça.
– Eu não entendo de onde vem a parte das pessoas boas, agora que nós recebem os o m aterial sobre todas as vítim as, ou pelo m enos daquelas sobre as quais nós tem os relatórios. Em bora haj a preponderância de m édicos e trabalhadores de aj uda hum anitária, nem todos trabalhavam para aj udar os outros. O israelense era professor, e antes tinha sido soldado. – Ela balançou a cabeça e m udou de assunto. – O que foi que o italiano disse sobre a Bíblia?
– As trinta e seis pessoas j ustas. Aparentem ente é um m ito j udaico.
– Essa é a prim eira vez que eu lam ento não ter prestado m ais atenção nas aulas de religião. Do que é que fala o m ito?
– Não sei. – Niels deu de om bros. – Na verdade eu não acho que sej a um fio condutor viável.
– O que vem a ser para você um fio condutor viável? Só assim eu posso entender as suas prioridades.
– Não há lógica em com o as vítim as são escolhidas. Seria fácil encontrar pessoas que realizaram coisas bem m elhores.
– Não tenho ideia. Mas olhe para o m apa. – Ela estendeu os braços. – Os locais tam bém não parecem ter nenhum sentido, m as nós acham os que tem de haver um a conexão. A questão não é se tem sentido para nós.
Niels olhou para o m apa. Ela estava coberta de razão. A questão era se tinha sentido para o assassino. Hannah se sentou diante do com putador.
– Trinta e seis hom ens j ustos – não é isso que está escrito no arquivo? – Antes que Niels pudesse encontrar a página, Hannah j á estava lendo o verbete na Wikipédia:
– Tzadikim Nistarim. Significa “Os Justos Ocultos”. Os hom ens bons de Deus na terra. Algum as pessoas acham que se apenas um deles m orrer, toda a hum anidade se arruinará.
– O que o estado presente das coisas pode confirm ar. – Niels sorriu.
Hannah prosseguiu:
– Outros dizem que a hum anidade só se arruinará quando todos os trinta e seis m orrerem . Eis o link em que você pode ler sobre o assunto. – Com letras de form a infantis ela escreveu a referência para Niels:
http://en.wikipedia.org/wiki/Tzadikim _Nistarim.
– Isso vai levar um a hora. O nom e dele não é Weizm an?
– De quem ?
– O rabino principal da sinagoga de Kry stalgade.
– Mas você pode ler sobre isso aqui.
Niels se levantou.
– Pode ser que m aioria das pessoas obtenha suas inform ações na Wikipédia, m as... – Ele se calou. Ficou em baraçado, era inegável – era com o se ele fosse um Škoda estacionado ao lado de um a Ferrari. Talvez tenha sido por isso que ele pareceu tão aborrecido quando com pletou a frase. – Mas para resolver um assassinato é preciso sair para o m undo.
Ele reuniu suas coisas e as pôs num a pasta pequena. A caneta, o celular, a agenda e as anotações. Então seus olhos focalizaram o nom e Abdul Hadi. Niels pegou o notebook e encontrou o que havia escrito sobre Abdul Hadi.
– O assassinato em Mum bai. Quando foi que ele aconteceu?
Hannah procurou no m aterial. Niels foi aj udá-la.
– Você escreveu a data no m apa.
– Isso! – Ela localizou o X m arcado na Índia.
– Raj Bairoliy a. Foi m orto no dia 12 de dezem bro. Algum a coisa errada?
– Não, provavelm ente é apenas um a coincidência.
– Um a coincidência?
– Ligo para você m ais tarde. – Niels j á estava saindo. Hannah disse algo, m as ele não ouviu. Tinha apenas um pensam ento na cabeça. Abdul Hadi estava em Mum bai no dia 12 de dezem bro.
Hannah acom panhou o carro de Niels enquanto ele ia pela estradinha. Novam ente ela olhou para a placa: II 12 041.
– Não pode ser coincidência – disse ela para si m esm a.