O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 54 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 45

Helligåndskirke – Copenhague

– Tom e, o senhor m erece. – O pastor pôs um copo na m esa diante de Niels e então se serviu. – Foi por um triz.

O destilado dourado fez arder a boca de Niels, e quando ele pôs o copo de volta na m esa havia nele um brilho rosado. Sua boca estava sangrando. Pelo m enos ele não tinha perdido nenhum dente e seu nariz não estava quebrado.

– Seria m elhor o senhor passar num pronto-socorro. – Rosenberg estava tentando parecer calm o.

Niels reconheceu o m odo com o ele estava se com portando. A reação clássica de alguém que foi subm etido a um a situação de risco de vida. Ou a vítim a desm oronava totalm ente e não fazia nada para esconder o que sentia ou então reagia do m odo oposto: “Meu Deus, não foi nada. Está tudo bem ”. Essa últim a reação era típica dos hom ens.

Niels não respondeu. Seu m axilar e a m açã esquerda do rosto doíam . O j oelho estava ferido. E sua pulsação se recusava a desacelerar.

O escritório da igrej a parecia um a com binação de sala de reuniões e sala de estar, com um toque de creche. Havia num canto um a caixa com chocalhos e blocos de LEGO. A estante atrás do pastor estava abarrotada de livros com encadernação de couro preto.

– Então, por que o senhor? – Niels descobriu que tinha dito em voz alta o que lhe ia pela cabeça.

Rosenberg encolheu os om bros.

– Com o é que ele escolhe as suas vítim as? Ou m elhor: com o é que ele as escolhia?

– Pode ter sido um a coincidência. – O pastor tom ou a sua bebida e im ediatam ente se serviu de outra dose.

– Eu não acredito nisso.

– Mais?

Niels tapou o copo com a m ão, estudando o pastor. Tinha a im pressão de que o hom em estava m entindo; só não sabia por quê.

– Eu não entendi isso. – O tom de voz de Niels estava alterado pelo ferim ento no seu rosto e parecia m ais nasal, m as ele queria pressionar Rosenberg. – Não tenho ideia de por que um m aluco sairia pelo m undo m atando pessoas boas.

– Pare de falar nessa história de pessoas boas – disse o pastor. – Eu estou longe de ser bom .

Niels o ignorou.

– Um a coisa é certa. Isso definitivam ente não é um a coincidência. É exatam ente o oposto. – Ele procurou os olhos do pastor e se recusou a desviar o olhar. – O senhor foi escolhido para m orrer hoj e. O senhor pessoalm ente. Com o aconteceu com os outros. E eu preciso descobrir por quê.

Niels se levantou e foi até a j anela. A sala era no segundo andar. Um a redentora coberta branca de neve se assentara sobre a rua. No alto dos telhados, nos carros e nos bancos. Um grupo de policiais estava de pé na rua. Dois deles tinham se posicionado perto do carro onde Abdul Hadi estava sentado no banco traseiro com as m ãos acorrentadas a um anel de ferro preso no chão do veículo. Até aqui e não mais que isso. Os policiais do serviço de inteligência j á haviam interrogado Niels e Rosenberg. Os dois não poderiam com entar o que tinha acontecido. Era o que determ inavam as leis relativas ao terrorism o. Investigações em andam ento, para im pedir outros ataques etc. Niels sabia perfeitam ente que não poderia dizer um a única palavra sobre o incidente em nenhum lugar. Aquela história nunca havia acontecido. Som ente nos arquivos secretíssim os da Dinam arca alguém poderia ler sobre o incidente. E a esses arquivos nem m esm o o prim eiro-m inistro dinam arquês tinha acesso. Niels conhecia as novas leis sobre terrorism o. Elas haviam introduzido um a cunha entre conhecim ento e inform ação, de um lado, e a população dinam arquesa de outro. Censura. Nada m enos que censura.

Quando Niels se virou, notou um a som bra atravessar o rosto de Rosenberg. Seus om bros estavam ligeiram ente curvos. A reação, pensou Niels. Lá vem ela. Ele vai desm oronar agora. Está percebendo que ficou a apenas poucos segundos de ser retalhado por um louco. O que significa que ele é vulnerável.

– O senhor tem um a fam ília com quem possa ficar esta noite? – indagou Niels.

O pastor não respondeu.

– Eu gostaria de providenciar um psicólogo para conversar com o senhor. Se isso aj udar.

Rosenberg apenas m eneou a cabeça. Passou-se um m om ento constrangedor. Niels sentiu que ele queria desesperadam ente conversar. Confessar. Isso fazia parte da sua natureza.

– Claro que o senhor não deve hesitar em m e ligar se...

– O senhor se enganou.

Niels ficou m uito quieto. Esperando.

– O senhor pegou o hom em errado. – A voz de Rosenberg parecia profunda e distante. Com o se vinda de outro lugar.

– O que o senhor quer dizer?

Silêncio.

– O que o senhor quer dizer com “o hom em errado”? Aquele hom em tentou m atar o senhor.

– Não é ele o hom em .

– O senhor o conhece, então?

Rosenberg hesitou. Depois balançou a cabeça, os olhos fixos na m esa. Niels se sentou.