O Último Homem Bom
Capítulo 66
Chiesa dei Santi G eremia e Lucia – Veneza
A cham ada do celular aconteceu no exato segundo em que a sirene parou de berrar. Um núm ero com o código de país 45. Da Dinam arca. As pessoas não deviam atender o celular dentro da igrej a, m as Tom m aso j á havia acendido um a vela para a sua m ãe, feito o sinal da cruz e se com portado com o um bom m enino. Na realidade ele tinha acendido duas velas, só por segurança. Velinhas de Natal que se extinguiriam quase instantaneam ente. Ele passou para o corredor lateral para não perturbar ninguém . Em voz baixa, disse:
– Tom m aso di Barbara.
Era a dinam arquesa. Queria saber se ele tinha recebido a m ensagem .
– Oui.
O francês dela tinha um forte sotaque dinam arquês. Mas ela pronunciava cada palavra com cuidado.
– O sistem a funciona com toda a precisão – explicou ela.
– Que coisa incrível!
– Se o núm ero está correto – se estam os falando do núm ero trinta e seis...
Havia m uito ruído na linha. Tom m aso ergueu o olhar para a pintura acim a dele: Jesus estava de pé ali com os braços estendidos. São Tom é, o Incrédulo, espetava o dedo num a das feridas de Cristo, no local onde a lança rom ana havia penetrado no flanco do Salvador.
– Você ainda está aí?
Hannah respondeu:
– Sim , perdão. Ainda vão ocorrer dois assassinatos. O próxim o vai acontecer na sua cidade ou na nossa daqui a algum as horas.
– Você tem certeza?
– Tenho. – Ela respondeu sem hesitação, confiante na sua convicção, que se aj ustava ao lugar onde Tom m aso se encontrava naquele m om ento.
– Mas... – Tom m aso lutou para expressar o seu espanto. No alto, perto do altar, um a caixa de vidro abrigava um a figura vestida de verm elho. Um turista a fotografou. Tom m aso se afastou daquele lugar. – Quando?
– Parece que todos os assassinatos foram com etidos no crepúsculo.
Tom m aso recapitulou m entalm ente a lista de vítim as. Por que ele não havia notado isso? Talvez porque a hora exata da m orte havia sido registrada em apenas alguns assassinatos. Mas m esm o assim . Todo dia nos últim os seis m eses ele tinha passado horas debruçado sobre o caso, e essa m ulher fora capaz de solucionar todo o caso em pouquíssim o tem po.
– Monsieur Di Barbara?
– Oui.
– Estou lhe m andando um texto. Ele contém as coordenadas do local onde o assassinato será com etido.
– O que você quer que eu faça?
Hannah ficou em silêncio durante alguns segundos. Então disse:
– O que você queria que nós fizéssem os quando nos m andou aquelas inform ações sobre o caso?
Tom m aso olhou à sua volta.
Hannah perguntou:
– Quando é que o sol vai se pôr em Veneza?
– Dentro de m uito pouco tem po, acho eu.
– Então você poderia usar o tem po que nos resta para localizar as coordenadas que eu estou lhe m andando. Encontre o local onde o assassinato vai ocorrer. Tente im pedi-lo.
– Sei. Claro. É que a m inha m ãe...
Ele pensou em explicar a situação. Que a sua m ãe tinha m orrido. Ele precisava voltar. As pessoas o desaprovariam por ir em bora logo depois da m orte dela. Mas ele não disse nada.
– O GPS tem um a certa m argem de erro. Mas num raio de alguns m etros deve ser preciso. Agora eu tenho de ir.
Luciano estava sentado na escadaria da igrej a. Era um dos poucos m oradores de rua rem anescentes. Em Veneza não os toleravam , por causa dos turistas. Quando Tom m aso era criança, eles eram em núm ero bem m aior. Agora Luciano era praticam ente o único que restava. Por outro lado, toda a vizinhança queria aj udá-lo. Com o se ali ele fosse um bichinho de estim ação.
– Tom m aso. Tem um trocado?
Tom m aso rem exeu nos bolsos.
– Só tenho oitenta centavos.
– Esquece. – Luciano recusou os oitenta centavos com um gesto de m ão e um suspiro indignado. Então Tom m aso achou no bolso de trás um a nota de cinco euros e a entregou ao hom em .
Ao se precipitar pela praça, Tom m aso viu que a água j á havia subido m ais um centím etro. Com exceção de Luciano nos degraus da igrej a, as ruas estavam desertas.
– Feliz Natal – gritou o velho bêbado, e então Tom m aso dobrou a esquina.