O Último Homem Bom
Capítulo 71
Cannaregio, o G hetto – Veneza
Tom m aso havia encontrado m uitos analgésicos no arm ário de rem édios de sua m ãe e levara consigo alguns. Quando chegou em casa engoliu – sem ler as bulas – um coquetel de pílulas de cores vivas, em purradas com um copo de água m orna. Lem brou-se do teste que seu pai fazia para saber se ele estava com febre: “Dói quando você olha para cim a? Se doer, então você está com febre”. Tom m aso experim entou. Doía. Ele estava tonto. Tentou se lem brar do que tinham dito na reunião para transm issão de instruções, na chefatura de polícia. Muitos políticos. Ele não se lem brava de nenhum . Um j uiz. Um cardeal. Poderia ser qualquer um deles. A próxim a vítim a poderia ser qualquer pessoa, m as ele ou ela estava no trem que ia chegar na estação dentro de alguns m inutos. Disso Tom m aso não tinha dúvida. Quer dizer, se as coordenadas diziam a verdade.
Tom m aso não conseguia ver o sol, apenas o brilho atrás do prédio em Santa Croce. Não restava m uito tem po. Se os cálculos da dinam arquesa estavam certos e o assassinato realm ente aconteceria quando o sol se pusesse, o tem po estava se esgotando. Por um m om ento ele perdeu a confiança. Olhou para a exposição de vítim as na parede do seu apartam ento. O caso tinha se tornado um a m aldição na sua vida. Ou seria um a bênção? Tom m aso j á não sabia m ais. Pensou casualm ente na sua m ãe – ainda estava com as m oedas no bolso – e no cachorro dela. Lem brou-se do olhar de leve censura que o bassê lhe dirigira quando ele o abandonou à própria sorte. Tom m aso afastou esse pensam ento. Era preciso ir para a estação ferroviária.
Suas costas doeram quando ele se inclinou para calçar as galochas. Chegou ao alto da escada e quase caiu nos degraus escorregadios. Sentou-se. Precisava descansar durante um m om ento. Talvez fosse bom cham ar Flavio. Explicar-lhe a situação, dizer que eles tinham de ficar vigilantes. Não. Era tarde dem ais para isso. Ele teria de tentar sozinho.