O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 20 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 14

Filial da Cruz Vermelha – Copenhague

A j ovem secretária da filial da Cruz Verm elha tinha um ar nervoso. O nervosism o era bem dissim ulado atrás de um a m áscara de sim patia e autoconfiança sincera, m as estava lá.

– Do departam ento de polícia?

– É. Meu nom e é Niels Bentzon.

Na base do pescoço dela surgiu um rubor. A m udança da cor quase não era visível, m as Niels a notou im ediatam ente. Ele era treinado para observar esse tipo de coisa.

Os negociadores da polícia eram funcionários com uns que tinham recebido treinam ento de psicólogos e psiquiatras para resolver conflitos sem o uso da força física. O prim eiro curso que Niels frequentara sobre a linguagem secreta do rosto havia aberto para ele um novo m undo. Ele e os seus colegas tinham aprendido a registrar os m enores m ovim entos, aqueles que ninguém pode controlar. As pupilas dos olhos, os vasos sanguíneos que correm no pescoço. Eles assistiam a film es sem som . Aprenderam a estudar o rosto sem ouvir as palavras.

– O sr. Thorvaldsen vai recebê-lo dentro de cinco m inutos.

– Obrigado. Está ótim o. – Niels pegou um folheto sobre um proj eto da Cruz Verm elha em Moçam bique e se sentou para esperar na pequena área da recepção.

Thorvaldsen parecia extrem am ente solene no folheto. Mais j ovem do que quando aparecera na televisão, recentem ente. “Malária, guerra civil e falta de água potável são algum as das m aiores am eaças à saúde pública em Moçam bique”, ele declarava. Niels pôs o folheto de lado. Moçam bique ficava m uito longe. Ele via Thorvaldsen sentado na sua sala, do outro lado da divisória de vidro. Estava rindo de algum a coisa. Para não ficar sentado olhando para o espaço, Niels abriu a pasta com o arquivo da Interpol e retirou de lá um dossiê. Olhou para o núm ero de telefone do funcionário da polícia que havia relatado o caso. Estranho, m as não parecia que algum a “pessoa boa” tinha sido m orta na Itália. No entanto havia um a na Rússia. Em Moscou. Vladim ir Zhirkov, j ornalista e crítico da sociedade. De acordo com o arquivo, ele tinha m orrido na prisão. Niels balançou a cabeça. Na Rússia parecia que as coisas eram feitas ao contrário: os bons iam para a cadeia enquanto os crim inosos ficavam livres. As autoridades russas diziam que a causa da m orte tinha sido um coágulo de sangue. Então por que Zhirkov tinha ido parar na lista das pessoas boas assassinadas? Niels encontrou a resposta m ais adiante na m esm a página. Todos os corpos tinham a m esm a tatuagem . Um a tatuagem com um desenho específico. Som m ersted m encionara isso? Niels não se lem brava. Não havia nenhum a outra inform ação. Bom , não tinha im portância, porque o caso não o interessava particularm ente. A falta de entusiasm o de Som m ersted parecia ter contam inado Niels. Meu Deus, uns poucos assassinatos com etidos em partes longínquas do m undo. E daí? Trezentas ou quatrocentas pessoas m orriam anualm ente em acidentes de trânsito na Dinam arca. Muitas delas eram crianças. E quem se im portava com isso?

Havia um funcionário da polícia no outro lado do m undo pensando nessas m ortes no trânsito naquele exato m om ento? Era m uito im provável. A única coisa que interessava a Niels era o fato de que logo m ais ele estaria a cam inho de encontrar Kathrine. Tom aria os tranquilizantes com o açúcar. Desfrutaria o sol. E não se im portaria nem um pouco com o fato de o hotel – de acordo com Kathrine – parecer um a cidadela feia cercada de aram e farpado e guardas arm ados. Ele ia se deliciar com a com ida fabulosa que os filipinos da equipe de cozinha do hotel preparavam ganhando salários indecentes. Transaria com Kathrine, deleitando-se com o seu belo corpo. Desfrutaria o fato de poder tocá-la sem pre que quisesse. Som m ersted e tudo o que lhe dizia respeito seriam esquecidos e...

– Alô.

Niels estava com o celular na m ão. Não tinha se dado conta de que fizera um a ligação. Era com o se os seus dedos tivessem vontade própria. Um círculo fora desenhado em torno de um nom e num dos docum entos do arquivo. Tommaso di Barbara, seguido de um núm ero de telefone. Ele havia feito aquele círculo?

– Alô – repetiu a voz.

– Tom m aso di Barbara? – disse Niels em voz alta. Provavelm ente ele não estava pronunciando direito.

– Si. – A voz parecia cansada, deprim ida.

– Aqui é Niels Bentzon – inform ou ele em inglês. – Estou ligando da Divisão de Hom icídios de Copenhague. Tenho um com unicado aqui que diz que você foi o prim eiro policial a...

– Scusa. Parla italiano?

– Não.

– Français?

Niels hesitou. Olhou para a secretária.

– Por acaso você fala italiano? Ou francês? – indagou ele.

– Não. – Ela lhe deu um sorriso radiante. Ele nunca havia visto alguém tão feliz por não falar um idiom a estrangeiro. Ou seria por ele ter lhe dado um a atenção que ela não esperava receber? Thorvaldsen agora estava saindo da sala.

– Monsieur? Alô? – disse a voz no telefone.

– Eu ligo para você m ais tarde, sr. Di Barbara. Certo? – Niels encerrou a conversa e se pôs de pé.

Thorvaldsen estava j unto da porta, despedindo-se dos seus dois visitantes.

– Mantenha os cartões perto do peito. Não querem os com eçar um frenesi m idiático agora – recom endou ele a um dos hom ens, pondo a m ão no seu om bro. – Estam os com binados?

– Está aqui um hom em da polícia pedindo um a pequena reunião com o senhor – m urm urou nervosam ente a secretária.

– Da polícia? – Thorvaldsen se virou e viu Niels. – Aconteceu algum a coisa?

– Não, não. – Niels deu um passo na direção dele e estendeu a m ão. – Niels Bentzon, da polícia de Copenhague.

Thorvaldsen tinha o aperto de m ão forte e um olhar decidido. Era um hom em acostum ado a ser levado a sério pelos outros.

– Da polícia? – repetiu ele.

Niels m eneou a cabeça.

– É só um m inuto.