O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 104 de 137

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O Último Homem Bom

Rumo ao oeste

– Protetores! – Niels a olhou insolente. – Eu não consigo proteger nem a m im m esm o.

– Isso não é verdade. Foi você m esm o quem m e disse que quando as pessoas se cansam de tudo e tentam com eter suicídio é para você que apelam . Você é com o os outros trinta e cinco. Médicos, defensores dos direitos hum anos. Pense naquele russo no teatro, que se apresentou para ser m orto em vez da m ãe, m uito j ovem ainda, e seus filhos. É exatam ente isso que você faz. Desde o início você enfrentou a am eaça com decisão. Você é o único que fez isso.

Ele notou que Hannah estava apertando a sua m ão. Ela relaxou a tensão, m as não a soltou.

– Um provérbio antigo diz assim : “O m aior golpe de gênio do diabo foi...”

– Convencer as pessoas de que ele existe – com pletou Niels.

– O m aior erro que podem os com eter é pensar que nós j á entendem os tudo. Entre as pessoas que eu conheço, as m ais céticas, aquelas que têm m enos certeza sobre o funcionam ento do m undo e do universo, são tam bém as m ais inteligentes. As m ais brilhantes. – Ela fez um a pausa. – Deus não existe. Tudo com eçou com o Big Bang. Podem os fazer a tem peratura subir ou descer, com o um term ostato. – Ela balançou a cabeça e sorriu para ele. – A certeza absoluta é apenas para os idiotas. É preciso um certo grau de inteligência para perceberm os com o na verdade nós som os pequenos.

– É por isso que nós não sabem os o que está acontecendo com igo? É isso que você quer dizer?

– É. Mas nós podem os ver um sistem a. Com a gravidade é a m esm a coisa. Nós não tem os ideia de por que ela funciona do j eito com o funciona. Mas sabem os que a bola vai cair quando a j ogam os para cim a. O que quer que você faça, Niels, não im porta: você vai acabar no Hospital Nacional daqui a seis dias. Na sexta-feira.

Niels não respondeu. Ele girou a chave na ignição. Havia algo de libertador no ato de acabar com o silêncio.

– Aonde vam os? – perguntou Hannah.

Ele olhou para ela e disse:

– Sair de férias. Eu preciso de um descanso.

Rumo ao oeste

A neve com eçou a cair na estrada enquanto eles saíam de Copenhague. Inicialm ente eles foram para o norte. Os altos edifícios de apartam entos deram lugar a casas. Estas foram ficando cada vez m aiores, acabando por se tornar m ansões antes de cederem espaço à natureza.

– Não. – Niels m udou de ideia. – Vam os para o oeste.

Ele pegou a entrada para Odense. Queria ir para tão longe quanto possível. No rádio, vozes agitadas discutiam o m alogro da conferência sobre o clim a. Obam a j á havia ido em bora. Alguns com entaristas diziam que o m undo estava condenado. “E talvez nós não m ereçam os estar aqui, na verdade. Nós, os seres hum anos. Os destruidores.” As palavras do rádio voaram pelo ar com o a neve do outro lado das j anelas do carro.

– Olhe para isso – disse Hannah baixinho, quase com o se estivesse falando para si m esm a. Ela olhava encantada para os bilhões de flocos de neve através dos quais o carro avançava. – Fico m e perguntando se flutuar no espaço é assim .

Os faróis dianteiros do carro ilum inavam os dois lados dos cam pos cobertos de neve.

– Precisam os ouvir m úsica. – Niels rem exeu na pilha de CDs. Milli Vanilli e Nina Hagen num a caixa quebrada.

– Olhe para a estrada.

– Você não tem nada dos Beatles? Ou do Bob Dy lan? – indagou Niels. – Algum a coisa de antes de 1975?

– Só tenho m úsica que eu não ouvia quando o Johannes estava vivo.

Ele olhou para ela.

– Isso faz parte do que você cham a de proj eto?

– Exatam ente. Mas tom e cuidado!

Eles com eçaram a deslizar. Por alguns segundos Niels perdeu o controle do carro.

– Eu disse para você olhar para a estrada.

Niels sorriu. Hannah acendeu dois cigarros, entregou um para ele e abriu a j anela.

– Obrigado. – Ele ligou a m úsica. Um a m elodia pop m onótona que em certo sentido era apropriada ao m om ento. – Mas na verdade isso não im porta, não é m esm o?

– O que é que você quer dizer?

– Se o carro desliza e sai da estrada. Ou se nós tem os um acidente. Você m esm a disse que é um a lei da natureza que eu vou acabar no Hospital Nacional na sexta-feira. Não interessa o que eu possa fazer.

– Não sou eu quem decide isso. É o sistem a. É m atem ática. Mas ele não se aplica a m im . E eu não sei se estou pronta para...

Niels olhou para ela.

– Nem eu.

 

Eles passaram por aldeiazinhas que pareciam todas iguais. A m esm a vista, de dentro do carro: postes de ilum inação, um a estação de trem , um a m ercearia, um a pizzaria, um a banca de j ornais, tudo proj etado pelo m esm o arquiteto que proj etara todas as cidadezinhas dinam arquesas. Seguram ente esse hom em era ocupadíssim o.

Eles pararam num sem áforo. Não havia ninguém à vista. Nenhum a luz em nenhum a das j anelas. Nem no consultório do veterinário nem no posto de saúde da com unidade. Tam pouco na farm ácia ou no bar.

– O sem áforo está verde.

Niels não se m exeu.

– Niels?

Ele levou o carro para o acostam ento.

– O que é que está acontecendo? Onde é que nós estam os?

– Tanto faz.

– Tanto faz?

– É um nom e bom dem ais para este lugar, você não acha?

– Niels. Por que é que nós param os?

Ele olhou para ela.

– Para frustrar a sua m atem ática.