O Último Homem Bom
Rumo ao oeste
– Protetores! – Niels a olhou insolente. – Eu não consigo proteger nem a m im m esm o.
– Isso não é verdade. Foi você m esm o quem m e disse que quando as pessoas se cansam de tudo e tentam com eter suicídio é para você que apelam . Você é com o os outros trinta e cinco. Médicos, defensores dos direitos hum anos. Pense naquele russo no teatro, que se apresentou para ser m orto em vez da m ãe, m uito j ovem ainda, e seus filhos. É exatam ente isso que você faz. Desde o início você enfrentou a am eaça com decisão. Você é o único que fez isso.
Ele notou que Hannah estava apertando a sua m ão. Ela relaxou a tensão, m as não a soltou.
– Um provérbio antigo diz assim : “O m aior golpe de gênio do diabo foi...”
– Convencer as pessoas de que ele existe – com pletou Niels.
– O m aior erro que podem os com eter é pensar que nós j á entendem os tudo. Entre as pessoas que eu conheço, as m ais céticas, aquelas que têm m enos certeza sobre o funcionam ento do m undo e do universo, são tam bém as m ais inteligentes. As m ais brilhantes. – Ela fez um a pausa. – Deus não existe. Tudo com eçou com o Big Bang. Podem os fazer a tem peratura subir ou descer, com o um term ostato. – Ela balançou a cabeça e sorriu para ele. – A certeza absoluta é apenas para os idiotas. É preciso um certo grau de inteligência para perceberm os com o na verdade nós som os pequenos.
– É por isso que nós não sabem os o que está acontecendo com igo? É isso que você quer dizer?
– É. Mas nós podem os ver um sistem a. Com a gravidade é a m esm a coisa. Nós não tem os ideia de por que ela funciona do j eito com o funciona. Mas sabem os que a bola vai cair quando a j ogam os para cim a. O que quer que você faça, Niels, não im porta: você vai acabar no Hospital Nacional daqui a seis dias. Na sexta-feira.
Niels não respondeu. Ele girou a chave na ignição. Havia algo de libertador no ato de acabar com o silêncio.
– Aonde vam os? – perguntou Hannah.
Ele olhou para ela e disse:
– Sair de férias. Eu preciso de um descanso.
Rumo ao oeste
A neve com eçou a cair na estrada enquanto eles saíam de Copenhague. Inicialm ente eles foram para o norte. Os altos edifícios de apartam entos deram lugar a casas. Estas foram ficando cada vez m aiores, acabando por se tornar m ansões antes de cederem espaço à natureza.
– Não. – Niels m udou de ideia. – Vam os para o oeste.
Ele pegou a entrada para Odense. Queria ir para tão longe quanto possível. No rádio, vozes agitadas discutiam o m alogro da conferência sobre o clim a. Obam a j á havia ido em bora. Alguns com entaristas diziam que o m undo estava condenado. “E talvez nós não m ereçam os estar aqui, na verdade. Nós, os seres hum anos. Os destruidores.” As palavras do rádio voaram pelo ar com o a neve do outro lado das j anelas do carro.
– Olhe para isso – disse Hannah baixinho, quase com o se estivesse falando para si m esm a. Ela olhava encantada para os bilhões de flocos de neve através dos quais o carro avançava. – Fico m e perguntando se flutuar no espaço é assim .
Os faróis dianteiros do carro ilum inavam os dois lados dos cam pos cobertos de neve.
– Precisam os ouvir m úsica. – Niels rem exeu na pilha de CDs. Milli Vanilli e Nina Hagen num a caixa quebrada.
– Olhe para a estrada.
– Você não tem nada dos Beatles? Ou do Bob Dy lan? – indagou Niels. – Algum a coisa de antes de 1975?
– Só tenho m úsica que eu não ouvia quando o Johannes estava vivo.
Ele olhou para ela.
– Isso faz parte do que você cham a de proj eto?
– Exatam ente. Mas tom e cuidado!
Eles com eçaram a deslizar. Por alguns segundos Niels perdeu o controle do carro.
– Eu disse para você olhar para a estrada.
Niels sorriu. Hannah acendeu dois cigarros, entregou um para ele e abriu a j anela.
– Obrigado. – Ele ligou a m úsica. Um a m elodia pop m onótona que em certo sentido era apropriada ao m om ento. – Mas na verdade isso não im porta, não é m esm o?
– O que é que você quer dizer?
– Se o carro desliza e sai da estrada. Ou se nós tem os um acidente. Você m esm a disse que é um a lei da natureza que eu vou acabar no Hospital Nacional na sexta-feira. Não interessa o que eu possa fazer.
– Não sou eu quem decide isso. É o sistem a. É m atem ática. Mas ele não se aplica a m im . E eu não sei se estou pronta para...
Niels olhou para ela.
– Nem eu.
Eles passaram por aldeiazinhas que pareciam todas iguais. A m esm a vista, de dentro do carro: postes de ilum inação, um a estação de trem , um a m ercearia, um a pizzaria, um a banca de j ornais, tudo proj etado pelo m esm o arquiteto que proj etara todas as cidadezinhas dinam arquesas. Seguram ente esse hom em era ocupadíssim o.
Eles pararam num sem áforo. Não havia ninguém à vista. Nenhum a luz em nenhum a das j anelas. Nem no consultório do veterinário nem no posto de saúde da com unidade. Tam pouco na farm ácia ou no bar.
– O sem áforo está verde.
Niels não se m exeu.
– Niels?
Ele levou o carro para o acostam ento.
– O que é que está acontecendo? Onde é que nós estam os?
– Tanto faz.
– Tanto faz?
– É um nom e bom dem ais para este lugar, você não acha?
– Niels. Por que é que nós param os?
Ele olhou para ela.
– Para frustrar a sua m atem ática.