O Último Homem Bom
Capítulo 21
Viaj ando pela prim eira vez. A m aioria das pessoas se lem bra dessa experiência – a infantil im pressão de aventura quando o avião decola. De com o tudo é novo: os com issários de bordo, a com ida, os copinhos, os utensílios de plástico e os acessórios que parecem ser de um a casa de bonecas. O m odo com o deixam os para trás todas as preocupações e perm itim os que alguém determ ine o destino e o traj eto.
Veneza
O cheiro da laguna não se parecia com nada do que Niels j á havia sentido. Acolhedor, em bora bolorento. A água salobra era azul-escura e apesar disso tão convidativa que lorde By ron havia pulado no canal. Niels tinha lido essa história no seu guia de viagem .
Durante a m aior parte do voo ele tinha apenas olhado pela j anela do avião. Quando voavam sobre os Alpes ele chorou sem fazer um som , sem se m exer. Se Hannah estivesse com ele lhe teria dito que os Alpes não eram nada m ais que o resultado do choque entre duas placas continentais. E que dentro de algum as centenas de m ilhões de anos o Mediterrâneo desapareceria quando o continente africano alcançasse a Europa. Kathrine provavelm ente não poderia esperar tanto tem po, por isso Niels tinha com prado um a passagem de Veneza para a África do Sul. Ele tinha de m udar de avião três vezes e a viagem levaria um dia inteiro.
Um j ovem que estava num dos táxis aquáticos gritou:
– Veneza, senhor?
Niels pegou o guia de viagem e apontou para a ilha onde ficava o cem itério.
– San Michele? O cem itério?
Niels arriscou um débil si. O que levou o j ovem a dizer um preço: noventa euros. Que inferno. Em bora Hannah o tivesse alertado sobre a necessidade de pechinchar em Veneza, especialm ente naquela época do ano, quando todos estavam desesperados para ganhar dinheiro.
Niels com eçou a rir quando o m otorista acelerou e a lancha saltou sobre a água com o um a pedra saltitante. O j ovem olhou para Niels e não pôde deixar de com partilhar com seu passageiro aquela genuína alegria suscitada pela velocidade.
No San Michele eles tiveram de esperar a retirada de um caixão de um pequeno barco com verniz preto para depois poderem atracar. Quando Niels saltou para o cais o m otorista segurou seu braço e depois acenou entusiasticam ente ao se afastar na lancha. Som ente então Niels se deu conta de que não tinha a m enor ideia de com o voltaria da ilha.
Se o cem itério era um a visão antecipada da beleza do resto da cidade, então o prenúncio era bom . Capelas, colunatas, palm eiras e salgueiros, ornam entação, rostos e asas de anj os – um a cornucópia de arte sacra para aj udar as pessoas a se despedir com estilo desta vida. Niels passou quase um a hora cam inhando por lá, sentindo-se ao m esm o tem po adm irado e aturdido. Lentam ente ele com eçou a perceber o sistem a: onde as urnas m ais recentes tinham sido colocadas e onde os protestantes eram enterrados.
Niels cam inhou por interm ináveis fileiras de urnas superpostas. Rostos e nom es. Flores e velas acesas colocadas em copinhos verm elhos que protegiam da chuva a cham a.
Ele encontrou os restos terrenos de Tom m aso esprem idos entre os de Negrim Em ilio e Zanovello Edvigne. tom m aso di barbara. Havia tam bém um a pequena foto: um rosto e a parte superior dos om bros, m ostrando um uniform e. Um hom em de aspecto agradável. Um am igo.
Niels se sentou no banco sob o salgueiro chorão, bem ao lado de Tom m aso. Não tinha levado nada consigo. Nem flores nem velas. Levara apenas a si m esm o. Não m ais o hom em bom . Apenas ele.
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A. J. Kazinski
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