O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 80 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 68

Cannaregio – Veneza

A cor das galochas da irm ã Magdalena poderia ser adequadam ente descrita com o cor-de-rosa gritante.

Tom m aso sorriu ao vê-la cortando cam inho pela Madonna dell’Orto. A parte norte da cidade era um pouco m ais baixa que o resto e por isso ficava inundada m ais rapidam ente.

Ele a cham ou:

– Irm ã! Você ia m e dizer um a coisa. Um recado da m inha m ãe.

A sirene de alarm e abafou as suas palavras. Ela desapareceu dentro da casa de repouso sem olhar para trás. A m enos que Tom m aso quisesse atravessar a pé a ponte em Dell’Orto e se m olhar até os j oelhos, seria preciso voltar para chegar ao desem barcadouro do norte, que raram ente inundava. Ele deu um a olhada no relógio. O desvio em torno de Fondam enta Nuove significaria pelo m enos quinze m inutos a m ais. Ele tinha um a hora, talvez m enos, até o crepúsculo. A dinam arquesa havia lhe dado as coordenadas do GPS: 45º26’30’’ e 12º19’15’’. Seu celular podia m ostrar longitude e latitude. Sua posição naquele exato m om ento estava em 45º26’45’’ e 12º19’56’’. Tom m aso não tinha ideia de quanto tem po levaria para chegar ao local certo, qualquer que fosse ele. Assim , era m elhor sair logo. A inundação tom aria conta da cidade durante pelo m enos duas horas e ele não acreditava que a irm ã Magdalena fosse a algum lugar nesse m eio-tem po. Além disso, o que ela poderia ter de tão im portante para contar-lhe?

Suas m eias j á estavam ensopadas quando ele correu pela Fondam enta dei Mori rum ando para o sul. Seus sapatos chapinhavam na água. Ele era a única pessoa na rua. O lugar era aquele. Ele parou na frente da casa de Tintoretto. Tom m aso gostava m uito desse pintor. Não tanto pela sua lendária pintura do roubo do corpo de são Marcos, m as pelo fato de Tintoretto praticam ente não ter saído de Veneza. Som ente um a vez em toda a sua vida o pintor se arriscou a afastar-se da laguna, e dizia-se que ele se sentiu m uito m al durante toda a viagem . Tom m aso era outro que não havia j am ais se afastado da laguna.

O sinal do GPS com eçou a oscilar freneticam ente. Era difícil conseguir um sinal nas ruas estreitas.

Ele continuou andando na direção do cassino e do Grand Canal, esperando obter um sinal m elhor perto do canal. Seus pensam entos ainda estavam com Tintoretto. Não. Com são Marcos. Talvez por ser m ais fácil pensar no evangelista m orto que na sua m ãe que acabara de m orrer. Ele im aginou o corpo de são Marcos, a prim eira pintura vista por todas as crianças de Veneza. Afinal de contas o santo era o anj o da guarda da cidade. A praça central tinha o nom e dele. Dois m ercadores venezianos tinham roubado o seu corpo em Alexandria – m enos a cabeça, caso se possa dar crédito ao povo de Alexandria. Dizia-se que a cabeça tinha sido roubada no Egito.

O cadáver acéfalo, a m ão m urcha da sua m ãe e as cores da m orte, tudo isso perseguia Tom m aso quando ele chegou a Strada Nova. O sinal do GPS oscilou novam ente. No canal ele viu a luz do sol que se punha. Daquele j eito ele j am ais encontraria o lugar certo; Veneza não tinha sido construída para receber sinais de GPS nem para carros. Ele precisava arranj ar um com putador.

 

A entrada estava inundada. Anúncios, com ida de cachorro e os sapatos pretos da sua m ãe flutuavam num lago de água do canal; na superfície um a fina cam ada de óleo dos m otores dos barcos tentava parecer um arco-íris. A luz apagou um segundo depois de ele a ter acendido. O interruptor central tinha desligado. Ao subir a escada, saltando três degraus de cada vez, ele se lem brou da bateria do seu laptop. Ele balançou a cabeça. Seu prédio havia sobrevivido a quatrocentos anos de inundações m ensais. O seu laptop IBM tinha apenas seis m eses de uso e, no entanto, j á indicava que a bateria estava quase apagada. Google Earth. Ele procurou um lugar onde pudesse digitar as coordenadas. Não encontrou. Bateria fraca. Tom m aso encontrou a laguna no globo, clicou freneticam ente nele, depois deu zoom em Veneza. Estava chegando perto. Bateria fraca, salve seus documentos. Tom m aso conferiu as coordenadas no celular e levou o m ouse ligeiram ente para o norte. Lá estava.

Ele se recostou, olhando para os resultados. Então seu com putador apagou.