O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 110 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 7

O mar do Norte

O hotel cheirava a excursão escolar, lanche em balado e roupas úm idas. Pisos e paredes de m adeira e, com o únicos adornos, fotos do m ar – em bora este se encontrasse logo além da porta. A recepção estava vazia e Niels procurou na m esa um a cam painha que ele pudesse tocar com seu pulso congelado. A funcionária do hotel finalm ente apareceu atrás deles.

– Boa noite. – Niels tinha o rosto rígido de frio. – O hotel está aberto?

– Está. Funcionam os durante o ano inteiro. Quantas noites vocês vão ficar? – Ela ocupou seu lugar atrás do balcão.

– Hum ... – Hannah olhou para Niels.

– Cinco, por enquanto – disse ela. – Talvez m ais.

A funcionária olhou para a tela de um com putador.

– Quarto de casal?

– Não. – Niels olhou para Hannah. – Dois quartos de solteiro.

 

A j anela dava para o m ar. Um a cadeira, um a m esa instável, guarda-roupa e um grosso tapete verm elho. Niels se espichou na cam a por um m om ento. Ela rangeu e o colchão cedeu. Era quase com o se deitar num a rede. Mas ele não se im portou. Fechou os olhos, virou de lado, encolheu as pernas e usou as m ãos com o travesseiro. Im aginou alguém olhando de cim a para ele. Talvez ele próprio estivesse fazendo isso. Ou um pássaro. Ele precisava ir ao banheiro para dar um a olhada na m arca nas suas costas. Afastou rapidam ente esse pensam ento. Afundou m ais um pouco no colchão. Outros pensam entos desagradáveis lhe ocorreram : sua m ãe, a conferência sobre o clim a e Abdul Hadi. As palavras do pastor: Mas mãezinha, e se o monstro também tiver uma mãe?

– Niels?

Um a voz vinda de longe. Ele teria caído no sono?

– Niels.

Hannah. No corredor.

– A gente precisa com er. Vam os nos encontrar no restaurante dentro de dez m inutos? Fica no terceiro andar.

– Tudo bem . – Ele se apoiou nos cotovelos. – Vej o você lá em dez m inutos.

 

A decoração do restaurante era m adeira pintada de branco e flores secas do m ar do Norte enfeitando as paredes. Os enfeites natalinos estavam no peitoril das j anelas. Não havia outros hóspedes. Hannah apareceu na outra extrem idade do restaurante.

Niels teve a im pressão de que ela j á havia estado no restaurante por algum tem po m as resolvera sair e ficar atenta para entrar novam ente em grande estilo. Ela parecia diferente.

– Você j á fez o pedido? – perguntou Hannah.

– Não. A m oça da recepção é a garçonete. E tam bém a cozinheira, provavelm ente.

– E a gerente do hotel.

Eles riram . A recepcionista veio até a m esa.

– Vocês j á sabem o que vão pedir? – indagou ela dirigindo-se a Niels.

– Vam os com eçar com algum a coisa para beber.

– Vinho branco – disse Hannah im ediatam ente.

– Algum tipo específico?

– O m elhor que vocês tiverem . – Niels sorriu para a funcionária. – Já que de qualquer form a o m undo vai acabar neste fim de sem ana, podem os ter o m elhor.

– Não estou entendendo. – A j ovem olhou para ele aturdida.

– Nem eu.

Um sorriso indeciso e um a risadinha. Depois a funcionária desapareceu.

– Não deixe a m oça nervosa – disse Hannah.

– Não vej o por que não lhe dizer o que vai acontecer. Talvez haj a algum a coisa que ela precise fazer.

– No instituto a gente sem pre fala sobre isso.

– O fim do m undo?

– Claro. Nós ficam os lá sentados olhando para o espaço, vendo sóis agonizantes e galáxias que se chocam .

– E m eteoros?

– Esses são um pouco m ais difíceis de ver. Mas o m eu trabalho é um lem brete constante do final. Felizm ente ele tam bém é um lem brete do nascim ento de novos m undos.

A funcionária do hotel estava de volta. Ela abriu a garrafa de vinho, encheu as duas taças e se foi. Então um silêncio tranquilo se instalou sobre eles.

Niels arruinou o m om ento.

– Seu filho.

– É. Meu filho. Meu am ado filho.

Ele seguram ente lam entou ter abordado o assunto, m as j á era tarde dem ais. Em bora tenha assum ido um ar distante, ela prosseguiu:

– Ele se m atou.

Niels baixou o olhar para a m esa.

– Johannes era um a criança-prodígio. Um garoto extraordinariam ente dotado. – Ela bebericou o vinho.

– Quantos anos ele tinha quando m orreu?

A pergunta foi ignorada.

– Ele com eçou a m ostrar sinais de perturbação psicológica. Johannes era esquizofrênico. Você sabe o que eu estou dizendo?

– Sei.

– No dia em que recebem os o diagnóstico no hospital Bispebj erg foi com o se o m undo inteiro desabasse sobre m im e o Johannes.

– E o seu m arido?

– Gustav não estava lá. Sem pre que as coisas ficavam com plicadas do ponto de vista psicológico ele viaj ava para dar palestras. Quando eu lhe falei no telefone sobre o diagnóstico, ele disse: “Bom , pelo m enos nós agora tem os um a explicação, Hannah. Eu preciso correr. Vou para um a reunião”.

– Sinto m uito.

– Talvez tenha sido bom ele dizer aquilo. O m odo que ele encontrou para lidar com a situação foi continuar a sua vida com o se nada tivesse acontecido. Assim , havia pelo m enos um a coisa que não tinha m udado. Gustav.

– Johannes estava internado em algum a instituição?

Hannah assentiu com a cabeça. Não disse nada por tanto tem po que Niels chegou a achar que ela havia encerrado o assunto.

– Eu o deixei no hospital e o visitava só nos dom ingos. E ele ficava lá.

Outra pausa, ainda m ais prolongada que a anterior. O silêncio j á estava com eçando a se tornar constrangedor.

– Você sabe que dia ele escolheu para se enforcar? – perguntou ela finalm ente.

Niels perm aneceu de olhos fixos na m esa.

– O dia em que Gustav recebeu a Medalha Fields. Foi a m ensagem m ais clara que um filho j am ais m andou para os pais: “Parabéns. Vocês m e abandonaram ”. Isso você não vai encontrar na Wikipédia, se for pesquisar lá sobre nós.

– Você não devia pensar assim . – Niels percebeu que seu protesto soou débil dem ais.

– Nos prim eiros m eses o m eu único pensam ento era partir.

– Você quer dizer... com eter suicídio?

– Eu não m erecia viver. Cheguei a conseguir as pílulas necessárias. Planej ei tudo.

– Por que você m udou de ideia?

– Não sei. Eu sim plesm ente resolvi que não faria isso. Talvez porque precisasse... – Ela se calou.

– O quê, Hannah?

– Porque eu precisava encontrar você, Niels. – Ela olhou para ele. – E fazer algo certo.

Niels queria dizer algum a coisa. Precisava dizer algum a coisa, m as Hannah pôs as m ãos sobre as dele e isso tornou supérfluas todas as palavras.