O Último Homem Bom
Capítulo 26
Chefatura de polícia – Copenhague
– Niels? Achei que você estava de férias. – Anni ergueu o olhar da tela do com putador, m as não pareceu tão surpresa quanto disse.
– Talvez m ais tarde. – Niels estendeu os braços. – Você falou que estava aqui.
– O quê?
– O fax de Veneza.
– Ah, sei. – Ela se levantou.
– Não precisa se levantar. – Niels tentou detê-la. – Eu posso pegar.
Ela o ignorou e passou por ele. Niels estava aborrecido. A curiosidade de Anni era lendária e norm alm ente tinha o seu encanto. Mas não naquele m om ento.
A delegacia estava praticam ente deserta. A sala sem divisórias, as telas planas, cadeiras ergonôm icas, escrivaninhas recém -adquiridas que podiam ser erguidas e abaixadas, caros m odelos de design escandinavo, tudo parecia m ais adequado a um a agência de publicidade que a um a delegacia de polícia. Mas a diferença era tão grande assim ? Niels tinha com eçado a duvidar disso. Nas reuniões ocorridas ali os term os de m arketing com o “proteção de im agem ” e “identidade de m arca” eram ouvidos com m ais frequência que os bons e antiquados term os policiais. Os superiores de Niels tinham se tornado celebridades. O chefe da polícia era tão querido da m ídia que só os com ediantes populares e os pop stars podiam com petir com ele. Niels não tinha ideia do porquê disso. A força policial se tornara um dos cam pos de batalha política m ais im portantes da sociedade. Incontáveis investigações testem unhavam isso. A reform a da polícia em 2007 havia suscitado m ais m anchetes que todas as recentes reform as tributárias j untas. Todos os políticos m enos im portantes cuj os m arqueteiros lhes tinham cochichado no ouvido que era fundam ental tom ar posição no debate poderiam recitar rapidam ente, até m esm o durante o sono, um a solidíssim a opinião sobre tudo o que dizia respeito à polícia. Muito em bora o conhecim ento dos políticos sobre o trabalho da polícia pudesse às vezes se basear apenas em alguns episódios de Miami Vice.
– Espere só e você vai ver o que diz o fax. – Anni dirigiu a Niels um olhar alvoroçado enquanto abria a porta da sala do com putador. – Eu nunca vi um a coisa assim .
A sala do com putador não tinha m uita relação com com putadores. Na verdade era o único lugar da sede – fora o refeitório – que não tinha um único com putador. Assim , seu nom e era sem pre m otivo de brincadeiras. Mas o espaço continha im pressoras, m áquinas de fax e fotocopiadoras, e cheirava a restos de produtos quím icos, ozônio e pó de tôner que inquestionavelm ente produziam náusea e dor de cabeça em pouco tem po.
– Pronto. – Anni voltou. – Quase tão grande quanto um a lista telefônica!
Niels olhou. Ele não sabia o que havia esperado, m as certam ente não era um a pilha de m uitas centenas de páginas.
– Do que se trata? – Anni tentou fazer seu interesse não parecer dem asiado.
– É só o m aterial de um caso.
– Bom , não pode ser um caso com um . – Ela tentou não sorrir. – Tem relação com a conferência sobre o clim a?
– Tem . – Niels a olhou solenem ente, pensando que o que quer que acontecesse na conferência sobre o clim a, o que quer que resultasse dos esforços feitos pelos líderes m undiais para im pedir que a terra fosse destruída, o evento não seria em vão. Porque sem a conferência sobre o clim a Niels não teria sido capaz de evitar que a sua secretária conversasse sobre o fax.
– Você tem um a caixa que eu possa usar? – Niels olhou em torno de si.
Anni lhe entregou um a caixa de papelão cheia de papel para im pressão. Ele a pegou sem dizer nada, m as com um sentim ento de culpa porque Anni havia se tornado um a m ãe substituta para ele. Tendo esvaziado a caixa, ele a encheu de páginas com faxes. Tentou dar um a olhada em algum as fotos. Fotos de autópsia. Marcas estranhas nas costas do cadáver. Um a relação de vítim as de assassinato. Na China e na Índia.
– Vej a só o vestido dela. Eles vão chegar am anhã?
Anni estava olhando para um a pequena tela de televisão. Barack e Michelle Obam a saindo do Air Force One em algum lugar do globo.
– Ela tem um traseiro avantaj ado. Isso é sexy? – indagou Anni, voltando-se para Niels.
– Acho que sim . Para quem gosta.
Michelle Obam a acenou da escada, obviam ente acostum ada a esse tipo de cena. Para quem ela estava acenando? Para o enorm e contingente de seguranças? Já na pista, Barack Obam a cum prim entou um hom em calvo, provavelm ente o em baixador am ericano no país em que eles estavam . Niels não conseguia tirar os olhos de Obam a. Havia na sua expressão um a certa tristeza, apesar do grande sorriso. Niels j á havia notado isso na prim eira vez em que o vira na televisão, durante um debate com Hilary Clinton. A som bra de algo pesaroso. Com o se ele tivesse algum a dúvida sobre os seus obj etivos – não sobre a sua vontade de concretizá-los, de criar um m undo m elhor. Mas ele parecia não saber se o m undo estava realm ente disposto.
A sala de Som m ersted estava ilum inada, o que surpreendeu Niels quando ele saiu da sala do com putador. Ele pôs no chão a caixa com as páginas de fax e com o pé em purrou-a para debaixo de um a escrivaninha, de form a que ninguém a visse. Índia e China. Os dois últim os assassinatos da lista vinda de Veneza. O terrorista não tinha estado tam bém na Índia?
– Cuidado – ele ouviu Anni adverti-lo. – O chefe está de péssim o hum or hoj e.
– Nos outros dias é diferente?
Niels bateu na porta e entrou. Som m ersted, ainda de casaco, estava de pé ao lado da escrivaninha. Parecia procurar algum a coisa.
– Sim ? – Ele não se deu ao trabalho de olhar para Niels. – Eu j á estou saindo.
Seu tom de voz era hostil. Era obviam ente um hom em sob pressão. Um hom em que havia m uito tem po não dorm ia o suficiente e que tinha a cabeça tom ada por cenas de horror de possíveis calam idades durante a conferência.
– Sobre o hom em do Iêm en que está sendo procurado...
– Chega! – Som m ersted ergueu a m ão.
Niels optou por ignorar seu gesto e prosseguiu.
– Não pude deixar de dar um a olhada no relatório de ontem . E vi por acaso quais foram os seus destinos m ais recentes.
– O quê? Não.
Os pensam entos de Som m ersted estavam longe. Isso era óbvio. Ele estava no Bella Center. Junto com os chefes de Estado sob sua proteção.
– Há um a ligação com o caso da Interpol.
– Bentzon. – Som m ersted suspirou. Ele era um predador que tinha resolvido dar à sua presa um a últim a chance. – O caso Hadi é supersecreto. Não é da sua conta. Nós não precisam os entrar em pânico agora, pelo am or de Deus. Dá para você im aginar? A com binação de terroristas altam ente treinados em Copenhague com todos os dirigentes m undiais reunidos na Ilha de Merda?
– Eu não estou totalm ente seguro, adm ito – disse Niels. – Mas tenho as m inhas suspeitas.
– Não! – Som m ersted desistiu de tentar se controlar e elevou a voz. – Esqueça, Bentzon. Deixe que outras pessoas cuidem disso. Você im agina quantos presidentes e prim eiros-m inistros vão estar no Bella Center daqui a algum as horas, contando com a m inha proteção? Brown e Sarkozy ! Todo o bando. Até um doido com o o Mugabe tem o direito de esperar não receber um a bala na cabeça enquanto está visitando a Maravilhosa Copenhague. Extrem istas, terroristas, doentes m entais. Todos eles vão querer que eu com eta um erro.
– Mas... – Niels j á havia desistido, porém fez um últim o esforço para vencer a resistência do chefe. Foi brutalm ente repelido.
– E agora a im prensa quer saber por que fizem os um a gangue de anarquistas detidos ficar sentada durante horas no asfalto frio. Parece que dois deles estão com infecção renal. Você j á pensou que isso pode nos causar um baita problem a?
Som m ersted não esperou um a resposta. Sim plesm ente passou apressado por Niels no vão da porta e foi em bora.
Não, droga! Niels deu m eia-volta. Isso não podia estar certo. Tinha de haver um a ligação. Índia, Mum bai. Niels discutiu consigo m esm o enquanto voltava da sala de Som m ersted. Ele era policial. Contratado para prevenir e resolver crim es. Não fazia parte do seu trabalho deixar Som m ersted feliz. A luz ainda estava acesa na sala do chefe. Aparentem ente, a ideia da responsabilidade com um pelo aquecim ento global não tinha penetrado na força policial de Copenhague. Niels entrou. Os docum entos ainda estavam na m esa. Niels se surpreendeu com o descuido de Som m ersted; sem dúvida isso se devia ao nervosism o. Ele encontrou um a foto de perfil do hom em do Iêm en. Abdul Hadi. Um a foto ligeiram ente borrada, tom ada em algum lugar do Waziristão, um a área m ontanhosa na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. Niels não era particularm ente versado em terrorism o internacional, m as sabia que o Waziristão era um dos focos de terroristas. A Irm andade Muçulm ana. Os docum entos a m encionavam várias vezes. Hadi tinha estado em contato com um m em bro im portante da Irm andade Muçulm ana. Não diziam o grau de proxim idade desse contato, m as tem ia-se que Abdul Hadi fosse um possível terrorista.
Niels olhou para cim a. Ninguém o estava observando. Os olhos de todos se voltavam para o Bella Center.
Ele folheou o arquivo. A Irm andade Muçulm ana. Correu os olhos pelas páginas: um a organização político-religiosa fundada no Egito em 1928 por Hasan al-Banna. O obj etivo deles era transform ar o Egito num a sociedade islâm ica, um a sociedade baseada na lei m uçulm ana estrita, nos m oldes da que fora criada na península Arábica pelos irm ãos Wahhabi. Apesar de publicam ente ser contra a violência, a organização tinha sido proibida m uitas vezes no Egito. Enquanto estava na prisão, na década de 1950, Say y d Qutb, um dos seus integrantes m ais destacados e que j á havia falecido, escreveu o m anifesto Marcos, considerado hoj e um a convocação às arm as para o terrorism o islâm ico. O braço direito de Osam a Bin Laden – e o segundo no com ando da Al-Qaeda – tam bém tinha com eçado sua carreira terrorista com o m em bro da Irm andade Muçulm ana. Desde a sua fundação, a organização tivera um a enorm e influência, e ainda tinha, não som ente no Egito com o tam bém em grandes extensões do m undo m uçulm ano. O grupo tinha sido ligado a inúm eras ações terroristas e apoiava abertam ente ataques contra Israel, considerado o principal inim igo. A organização islâm ica Ham as, de Gaza, havia se originado na Irm andade. A Irm andade Muçulm ana era m ais conhecida pela participação no assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat, no dia 6 de outubro de 1981. Ele foi assassinado em retaliação por ter estendido a m ão em 1978 para o odiado dirigente israelense Menachem Begin e por assinar o acordo oficial de paz com Israel.
Niels fez um a pausa. Depois folheou m ais algum as páginas até encontrar o que estava procurando. O relatório sobre as viagens de Abdul Hadi até ele conseguir entrar na Suécia. Havia óbvias lacunas, em bora não m uitas. Niels estudou cuidadosam ente o relatório. Acreditava-se que Abdul Hadi tinha sido visto a bordo de um trem na Suécia. O que ele estava fazendo lá? A Suécia seria o seu destino final ou ele iria até m ais longe? Ele havia chegado de avião de Bruxelas e antes disso – supunha-se – fizera paralelam ente um a viagem até a Índia. Niels estava surpreso. Com o era possível que um hom em caçado em todo o m undo pudesse viaj ar livrem ente, indo aonde bem entendesse? Sabia-se que os procedim entos de segurança internacionais deixavam m uito a desej ar. O público podia não ter conhecim ento disso, m as a polícia tinha. Apesar das significativas m elhorias nas m edidas de segurança da m aioria dos aeroportos internacionais – escâner de íris, im pressão digital, norm as m ais rigorosas concernentes aos passaportes e aos docum entos de identificação –, parecia que os terroristas estavam sem pre um passo à frente. Ou talvez fossem tantos que, m esm o prendendo alguns, outros sem pre conseguiriam escapar.
Niels descobriu que estava falando alto.
– O que é que você estava fazendo na Índia? – m urm urou ele.
Sem resposta. Hadi olhou para ele da foto. Niels reconheceu a sua expressão. Era daquele j eito que a pessoa olhava logo antes de puxar o gatilho.
– E por que é que você está vindo para a Dinam arca?