O Último Homem Bom
Capítulo 33
A sinagoga – Copenhague
Parecia um a fortaleza.
Foi isso que Niels pensou em prim eiro lugar ao descer do carro em Kry stalgade e olhar para a sinagoga com sua alta cerca de ferro. Dois guardas civis se postavam nas duas extrem idades da rua, batendo os pés no pavim ento para se aquecer. Sem dúvida contratados pela congregação j udaica. A pichação na parede explicava por quê: “palestina livre j á!”, e em baixo: “o m uro das lam entações – os palestinos estão se lam entando”. Niels pensou na quantidade de recursos que seriam liberados se esse antigo conflito pudesse se resolver. Recentem ente acontecera um debate no rádio sobre se a m etade do m ercado aberto de Copenhague cham ada Praça Israel deveria ser renom eada Praça Palestina. De todos os conflitos existentes na terra, a disputa entre israelenses e palestinos era a que m ais facilm ente se exportava.
Niels apertou o botão do interfone e esperou.
– Niels Bentzon, da polícia de Copenhague – disse ele.
– Aguarde um m om ento.
Niels esperou m ais um pouco. Leu na placa que o prédio tinha sido construído havia cento e setenta e cinco anos. Os doze pilares representavam as doze tribos de Israel.
– Vieram de m uito longe, essas doze tribos – disse Niels para si m esm o.
A sinagoga era um pouco recuada em relação à rua, o que lhe dava um aspecto um tanto reservado em com paração com os prédios vizinhos. A construção de um a casa de orações j udaica no centro de Copenhague tinha sido m otivo de controvérsia. Nesse sentido as coisas não haviam m udado m uito desde então. Mas agora o grande assunto era se os m uçulm anos tinham o direito de construir um a m esquita em Copenhague.
Finalm ente o portão se abriu com um zunido fraco. Niels entrou, e o portão se fechou atrás dele. Inseguro quanto à direção a tom ar, ele ouviu um a voz dizer:
– Por aqui.
Um hom em sorridente que devia ter pouco m ais de cinquenta anos estava se aproxim ando dele, vindo da área de estacionam ento num dos lados da sinagoga. Niels reconheceu im ediatam ente o rabino, que ele j á vira em entrevistas na televisão, com sua barba cheia salpicada de cinza.
– Niels Bentzon.
– Martin Weizm an. Hoj e está frio, hem ?
Niels assentiu com a cabeça.
– O senhor j á esteve na sinagoga?
– Não, nunca.
O rabino ainda estava segurando a m ão de Niels.
– Ah, então eu gostaria de recepcioná-lo. A palavra “sinagoga” significa apenas “casa de reunião” em grego, e assim não há nela nada de verdadeiram ente intim idador. Por favor, entre com igo.
Eles cam inharam pela lateral do prédio. Weizm an digitou um a senha e a porta abriu.
– Eu sei que parece o Forte Knox. Depois da bom ba em 1985 tivem os de reforçar a segurança.
Niels se lem brava do incidente. Um a poderosa bom ba terrorista que m ilagrosam ente não tinha m atado ninguém , m as causara m uitos prej uízos, inclusive quebrando todas as j anelas do lar de idosos atrás da sinagoga.
– O senhor só precisa colocar isto. – O rabino se virou. – É o nosso costum e.
Niels olhou surpreso para o solidéu e o pôs na cabeça.
– E o seu celular, por favor.
– Devo desligá-lo?
– Só desligue a cam painha. Eu tam bém faço isso. Deus não falou nada sobre celulares. Ele só m encionou carneiros e cabras.
Niels sorriu e pôs o telefone no vibrador. Outra porta. Então eles entraram na sinagoga.
Niels tentou parecer im pressionado, porque sentia os olhos do rabino fixos nele. Seu prim eiro pensam ento foi que a sinagoga parecia um a igrej a desconhecida.
– É um a das sinagogas m ais antigas da Europa – explicou o rabino. – A m aioria foi destruída na guerra. Nesse sentido os j udeus dinam arqueses tiveram m ais sorte.
Niels m eneou a cabeça.
– A tarefa de construir um a nova sinagoga em Copenhague foi dada originalm ente ao arquiteto da cidade, Peter Mey n.
– Um a nova sinagoga? – indagou Niels. – Havia um a antes desta?
– Havia. – Weizm an assentiu com a cabeça. – Em Lӕderstrӕde. Mas quando um a parte de Copenhague queim ou em 1795 a sinagoga ficou destruída. Mas o que eu dizia?
– Peter.
– Ah, sim . Peter Mey n. O arquiteto da cidade. A proposta dele foi analisada e considerada inadequada. Então a tarefa coube a G. F. Hetsch, um conhecido professor da Academ ia de Arte. O proj eto dele é o que você está vendo aqui. – Weizm an fez um gesto de m ão. – O trabalho dele foi bom , você não acha?
– Eu achei que haveria um altar na sinagoga.
– Com o nós não fazem os oferendas, não tem os altar. Cham am os aquela plataform a de bimah. É lá que nós rezam os e lem os a Torá. Ou m elhor, cantam os. – Ele piscou, o que surpreendeu Niels. – É preciso um pouco de habilidade para saber quando e com o m odular a inflexão de voz. Pelo texto não dá para saber. E lá – disse ele, apontando – é onde nós guardam os as Torás. No arm ário voltado para Jerusalém . É cham ado Aron Kodesh ou Hekhál. O ponto alto do serviço é quando se abre o arm ário da Torá e os m anuscritos são desenrolados. Ner tamíd é a luz eterna, que nos lem bra do m enorá, ou candelabro de sete braços, no tem plo de Jerusalém .
– O Muro das Lam entações.
– Exatam ente. O Muro das Lam entações é a única coisa que restou do segundo tem plo. Os rom anos o destruíram no ano 70. Os babilônios dem oliram o prim eiro em 586 a.C. Mas voltando ao serviço: com o o senhor pode ver, ele não é tão diferente do serviço da igrej a cristã, a não ser pelo fato de o nosso serviço sem anal não ser feito no dom ingo, e sim no sábado, na m anhã de sábado.
O rabino respirou fundo e olhou para Niels. Era evidente que ele estava acostum ado a dar esse tipo de m iniconferência. Niels sabia que ele frequentem ente falava para classes escolares em visita à sinagoga.
– Se eu entendi direito, o senhor quer conversar sobe o Tzadikim Nistarim. Os trinta e seis hom ens j ustos, cham ados frequentem ente de Lamed-Vav Tzadikim. Podem os nos sentar aqui. – Niels o seguiu até os fundos da sinagoga. O rabino cheirava a tabaco. Seus dedos eram m anchados de nicotina. Niels lhe fez um rápido resum o do caso.
– Pensar que alguém está m atando as pessoas que devem nos salvar, a todos nós. – Weizm an balançou a cabeça. – Isso é um a loucura. Pura loucura. Eu m e pergunto se não é isso que nós m erecem os. – Ele respirou fundo, levando oxigênio fresco para seus pulm ões, e sorriu. – Então agora o senhor quer saber...
– O m áxim o possível. Qual é a origem do m ito – se é que essa é a palavra certa.
– Se é assim que o senhor prefere cham á-lo. – O rabino encolheu os om bros. – Tzadikim Nistarim. Os trinta e seis hom ens j ustos. – Ele ficou em silêncio por um m om ento, pensando. – Vem do Talm ude.
– O senhor está se referindo ao m isticism o j udaico? A Cabala?
– Não, não. Nós não precisam os chegar lá. Felizm ente. Se precisássem os, ficaríam os velhos antes de encerrarm os o assunto. E pior ainda, enganados. – Ele deu um a risadinha. – Vam os deixar a Cabala para Holly wood – é sem pre bom ter a Cabala de reserva para ser usada quando eles não conseguem encontrar o final adequado para um film e. – Outra risadinha.
– O Talm ude, então?
– É. O Talm ude é com posto pelos ensinam entos orais dos j udeus. Com entários sobre a Torá, escrita originalm ente em aram aico e não em hebraico, em bora os dois idiom as sej am relacionados. O hebraico teve um renascim ento quando o Estado de Israel foi criado, e tornou-se a língua oficial. Antes dessa época ele era usado principalm ente para as preces e os serviços. Mas nós estam os nos afastando do Talm ude. – O rabino procurou o ponto certo para com eçar. – O Talm ude se com põe do Mishna e do Gem ara. O Mishna se refere à Palavra de Deus, exatam ente com o Moisés a recebeu do Senhor. O Gem ara se refere aos com entários e discussões dos rabinos sobre o Mishna. O Talm ude na verdade são dois: o Yerushalm i e o Bawli. É um a obra extraordinária de vinte e um volum es, cada um dos quais com m il páginas. Foi com pilado depois da destruição do segundo tem plo, no ano 70. Nessa ocasião os rabinos tem iam que o j udaísm o se perdesse, por isso decidiram escrever as leis e regras de vida que na época constituíam a base do j udaísm o. É um a obra que discute tudo o que há sob o sol. Questões políticas, legais e éticas. Pode-se dizer que o Talm ude é um registro de protocolos j udiciais. Com o devem os nos com portar? Quem tem razão em diversos casos que envolvem contestação?
– Por exem plo?
– Coisas m uito banais. – O rabino cruzou um a perna sobre a outra num m ovim ento calm o, cuidadoso. – Digam os que um hom em esqueceu sua bengala no m ercado e por algum a razão só voltou lá para pegá-la três m eses depois.
Nesse m eio-tem po um a velha usou a bengala. Ela tem direito de ficar com a bengala? Ou o dono continua sendo o hom em ? O que significa ter algo? Isso tam bém pode se aplicar a um pedaço de terra.
– O direito de posse?
– Isso. Por exem plo, um hom em deixa a sua casa por causa de... bom , isso não é relevante, na verdade. Pode haver razões de todo tipo. Guerra, fom e, o que quer que sej a. Quando ele volta, anos depois, a casa está ocupada por outras pessoas. Quem tem direito de viver nela?
– Parece que m uitas coisas precisam ser consideradas.
– Claro. Mas m uitos dos casos giram em torno de um princípio básico. Quando se encontra um a solução para o caso, podem -se traçar paralelos para um a série enorm e de casos sem elhantes.
– Assim com o o sistem a legal m oderno.
– Pode-se pensar assim . O Talm ude foi escrito na form a de discussões de rabinos entre os anos 100 e 500, de acordo com um a certa técnica m neum ônica. Um estilo discursivo, associativo, construído em torno de alegorias e parábolas, que torna a obra extrem am ente aberta a interpretações. O interessante é que cada volum e com eça com um tipo de dem onstração. A conclusão de um dilem a específico. Muito parecido com o que encontram os na m atem ática. Depois disso se apresenta o cam inho para a conclusão. Na verdade o cam inho é frequentem ente longo e sinuoso. – Ele sorriu m ais um a vez. – O Talm ude é para pessoas que têm m uito tem po nas m ãos. E lentes grossas nos óculos.
– Eu não. Quer dizer: não tenho m uito tem po.
– Percebo. Se o Talm ude tivesse sido escrito hoj e, provavelm ente seria m uito difícil encontrar alguém disposto a publicá-lo. Hoj e em dia tudo precisa ser super-rápido. Tem os um m edo terrível de perder sej a lá o que for. E na verdade essa é a razão pela qual perdem os m uita coisa. Minha conversa parece de velho? É isso que os m eus filhos dizem , tam bém . – Ele deu um a boa risada.
Niels sorriu, m as queria voltar ao assunto.
– Então está no Talm ude que vai haver trinta e seis hom ens bons?
– Vam os cham á-los de hom ens j ustos. É m ais correto. “Tzadikim” significa “j usto”. Os trinta e seis hom ens j ustos.
– Por que trinta e seis? Eu sei que o núm ero dezoito é sagrado, m as...
– Você fez a lição de casa. – Novam ente o sorriso de dentes arreganhados. – O núm ero dezoito é sagrado, m as por que devem ser trinta e seis – duas vezes dezoito – ninguém sabe. Em bora eu tenha ouvido um a teoria de que cada um deles cobre dez dias do ano. Trinta e seis. Trezentos e sessenta. Nesse caso, provavelm ente o núm ero tem m ais a ver com a astrologia. Há tam bém algo sobre cada um deles cobrir dez graus da superfície da terra. – Ele estendeu os braços. – Acho que vou ter de voltar a falar com você sobre isso. Mas eu sei que no folclore j udaico os trinta e seis costum am ser cham ados de santos ocultos. Lamed-Vovniks, em ídiche.
– Mas os bons – perdão, os j ustos – sabem que eles são os j ustos?
– Parece que você sabe m ais sobre o assunto que eu. Não, os j ustos não sabem que são j ustos. Só Deus sabe.
– Então com o é que alguém pode saber quem eles são? – perguntou Niels.
– Talvez nós não devam os saber.
– Sem pre existem trinta e seis?
– Pelo que sabem os, sim .
– O que acontece se um deles m orre?
– Se todos eles m orrem , então a hum anidade está arruinada. De acordo com a Cabala, até Deus vai m orrer se todos os trinta e seis desaparecerem .
– E em cada geração existem trinta e seis?
– Exatam ente. Trinta e seis j untos carregam nas costas os pecados e fardos da hum anidade. Algo por aí.
– Eu posso perguntar se o senhor pessoalm ente acredita nisso?
O rabino considerou a questão.
– Eu gosto dessa ideia. Olhe para o m undo à sua volta. Guerras, terror, fom e, pobreza, doença. Pense no conflito no Oriente Médio, por exem plo. Um a área da terra que contém tanto ódio, tantas frustrações; que sem pre tem um suj eito com um a bom ba escondido na próxim a esquina, e onde os pontos de controle e as barreiras se tornaram um a parte perm anente da vida cotidiana. Quando olho para este m undo a partir da m inha pequena torre de m arfim dinam arquesa, é um a ideia m uito atraente que possam existir pelo m enos trinta e seis pessoas j ustas na terra. Pequenos pilares hum anos para garantir que possam os m anter um m ínim o de bondade e j ustiça. O senhor está procurando um assassino? – indagou subitam ente o rabino.
Niels foi pego desprevenido. Não sabia o que dizer.
O rabino prosseguiu:
– Ou um a vítim a?