O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 26 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 19

Ospedale Fatebenefratelli – Veneza

A freira era filipina. Irm ã Magdalena da Ordem do Sagrado Coração. Tom m aso gostava dela. Um rosto bonito e sorridente para aj udar os doentes term inais a partir deste m undo. A casa de repouso recém -aberta ficava no lado norte do antigo bairro j udeu. Do Ghetto até lá era um a cam inhada que Tom m aso fazia em poucos m inutos. O bairro ainda era cham ado de Ghetto, em bora a palavra tivesse adquirido um significado diferente. Era ali que a palavra tinha se originado – “getto” significava “fundir ferro” em italiano. Centenas de anos atrás as fundições venezianas ficavam nessa parte da cidade, j unto com os j udeus. A área ficou então conhecida com o o Ghetto. Um lugar que m ais tarde se tornaria o m odelo para m uitos bairros urbanos em todo o m undo, que tinham em com um o fato de as pessoas não poderem sair dali.

Magdalena disse o nom e de Tom m aso quando ele entrou na casa de repouso.

– Signor Di Barbara? – sussurrou ela. Um a paz abençoada reinava no lugar. Ninguém j am ais elevava a voz ali. Com o se a intenção fosse preparar os agonizantes para o silêncio eterno que eles não tardariam a encontrar.

– Sua m ãe sofreu m uito na noite passada. Eu fiquei sentada ao lado da cam a durante toda a noite.

Ela olhou para ele com aqueles olhos encantadores. Aquilo era algo rude, m as ele não podia deixar de pensar: por que ela se tornara freira sendo tão linda?

– O seu coração é bom , irm ã Magdalena. Sorte da m inha m ãe, ter a senhora do lado dela.

– E ter um filho com o o senhor.

Ela falava sério – Tom m aso não tinha dúvida quanto a isso –, m as, com o o m ecanism o de um relógio, sua consciência culpada gritou im ediatam ente.

– Agora vou ter m ais tem po. – Ele hesitou. Por que ele lhe contaria? – Fui suspenso do m eu trabalho.

Ela tom ou sua m ão.

– Isso talvez sej a um a bênção.

Ele precisou reprim ir um a risadinha. Um a bênção?

– Sua m ãe tem cham ado o senhor.

– Sinto m uito, m as eu estava fazendo o turno noturno na estação.

– Parece que ela estava preocupada com o senhor. Ficava repetindo que havia um a coisa pela qual o senhor não devia pagar.

– Pagar?

– Algum a coisa sobre um dinheiro que o senhor não devia pagar. Que isso era perigoso.

Tom m aso lhe dirigiu um olhar aturdido.

– Minha m ãe disse isso?

– Disse. Várias vezes. “Não dê o dinheiro, Tom m aso – é perigoso.”

 

Irm ã Magdalena observou Tom m aso di Barbara rum ar para o corredor carregando um a sacola de com pras num a das m ãos e um a grande caixa de papelão debaixo do braço. Havia nele um quê de deprim ido, pensou ela enquanto o via passar pelos oito quartos que a única casa de repouso de Veneza tinha à disposição. A m ãe de Tom m aso estava no últim o, que dava para o pátio. Com exceção de um a palm eira, as árvores estavam todas desfolhadas. Com o se para com pensar isso, as freiras tinham posto decorações de Natal no hall: ram os e alguns festões brilhantes em torno do retrato de Maria com o Salvador recém -nascido.

Irm ã Magdalena sem pre ouvia atentam ente os últim os desej os dos agonizantes. Sabia por experiência que àqueles que tinham um pé no outro m undo às vezes era concedido um vislum bre do futuro. Com m ais frequência o que os agonizantes diziam eram frases sem nexo. Mas nem sem pre. Magdalena tinha cuidado dos term inais desde que entrara na Ordem do Sagrado Coração, quinze anos antes. Havia visto e ouvido m uita coisa. Sabia que aquilo não podia ser descartado com o absurdo.

Na sua vida anterior – era assim que ela sem pre pensava nisso – a irm ã Magdalena tinha sido prostituta. Mas Deus a salvara. Isso era claríssim o para ela. Ela conservava até um a prova: o recibo de um a bicicleta que ela levara para consertar.

Em Manilha ela havia sido a com panhia frequente de um am ericano ex-piloto. Ele tinha se fixado nas Filipinas e gastava a aposentadoria com m ulheres e álcool. Era ex-com batente da Guerra do Vietnã e para provar isso tinha cicatrizes na barriga e nas pernas. Provavelm ente na alm a tam bém . Mas agora estava m orrendo. Não era um a m orte digna; ele nunca havia conseguido dom inar seus desej os. Magdalena precisava ir à sua casa diariam ente e fazer sexo oral com ele. Ele a pagava, obviam ente, m as com a devastação que o câncer causava no seu corpo, a cada dia o orgasm o dem orava m ais a chegar.

Isso foi antes de ela adotar o nom e de Magdalena. Foi em outra época, e ela era outra pessoa. O piloto de m eia-idade tinha tido um bar, provavelm ente um a desculpa para o seu alcoolism o. Foi lá que Magdalena o conheceu. Agora ele estava doente e m orreria totalm ente só.

Mas aconteceu um a coisa que m udou a vida dela. Na últim a vez que ela foi visitar o piloto ele estava delirando. Agarrou a m ão dela e lhe disse: “Não vá lá”. Inicialm ente ela tentou aj udá-lo, dizendo-lhe “Calm a, vai ficar tudo bem ”. Mas ele continuava insistindo. “Você não pode ir lá.” Então ele descreveu o prédio que ficava do outro lado da Estação Shaw, bem na esquina onde Magdalena alugava um quarto. No andar térreo havia um a oficina de bicicletas. Tinha venezianas verdes descascadas, com tinta azul por baixo, revelando que a fachada j á fora de outro tom pastel.

No dia seguinte o piloto estava m orto. Na sem ana seguinte o prédio próxim o da Estação Shaw desm oronou. Magdalena tinha levado a sua bicicleta para consertar na oficina m as não ousara ir pegá-la. Dezenove pessoas tinham m orrido.

Ela fez seus votos. Entrou para a Ordem do Sagrado Coração. Mudou seu nom e para Magdalena – a prostituta que Jesus salvou de ser apedrej ada até a m orte.

Desde então ela se sentava perto dos agonizantes durante seis dias da sem ana. Um a sem ana à noite, na sem ana seguinte durante o dia. E tinha um dia de folga, quando ela dorm ia e assistia a Friends na televisão.

Irm ã Magdalena havia contado para o m édico da casa de repouso sobre a sua experiência, em bora om itindo a m aioria dos detalhes sórdidos. O m édico tinha sorrido e dado palm adinhas na sua m ão. De que outra prova um a pessoa precisaria?, ela se perguntou. O velho piloto nunca vira o prédio da oficina de bicicletas, que não ficava num bairro frequentado por estrangeiros, e no entanto foi capaz de descrevê-lo em detalhes. É im portante ouvir os agonizantes, por m ais que eles tenham sido pecadores, pensava ela frequentem ente. O piloto havia ido para a guerra; tinha m atado pessoas. Depois com eçou a beber e batia nas m ulheres que contratava para fazer sexo. Mas Deus havia resolvido falar por interm édio dele para salvar a vida dela. Era im portante prestar atenção aos agonizantes.

Irm ã Magdalena esperava que Tom m aso di Barbara prestasse atenção à sua m ãe agonizante.

 

A m ãe de Tom m aso estava dorm indo com a boca aberta. Roncava bem baixinho. Tom m aso pôs a sacola com os seus pertences sobre o pequeno aquecedor e a caixa com os docum entos da investigação do assassinato no chão. Os m ateriais do guarda-roupa da sua sala estavam todos dentro da caixa que Marina havia contrabandeado da delegacia. Com o se os docum entos fossem condenados a evitar a luz, com o se eles fossem algo de que ninguém queria ouvir falar.

Tom m aso tinha com prado para a sua m ãe salam e condim entado, tom ate e alho. Ela não tinha apetite, m as gostava m uito de odores fortes. Tom m aso com preendia m uito bem isso. Ele tam bém sentia necessidade de encobrir o insuportável cheiro de m orte e dos líquidos de lim peza da casa de repouso. Felizm ente isso não era difícil. Em bora todos os quartos tivessem sido recentem ente rem odelados, cada um com um aquecedor e um a cam a para os pacientes, não se instalara sobre os aquecedores nenhum a ventilação. O cheiro de m anj ericão e tom ilho se espalhou por todo o prédio. E isso era um a bênção.

– Mãe?

Tom m aso se sentou ao lado da cam a e pegou a m ão de sua m ãe. A pele estava bem esticada sobre os nós dos dedos. Havia tanta coisa sobre a qual eles não tinham conversado. Tanta coisa sobre a vida dela que ele ignorava. Com o o período da guerra, quando o pai dele tinha passado m uitos m eses na prisão. Seu pai apoiara o lado errado, em bora provavelm ente não fosse assim que ele visse a coisa, m esm o no fim da vida. Ele continuara um fascista fiel até a m orte prem atura. “Agora nós finalm ente terem os paz”, disse a m ãe de Tom m aso quando eles o enterraram no cem itério. Crem ado. A urna foi acrescentada ao espantoso m osaico de urnas em pilhadas. Aquilo era um labirinto, e na prim eira visita Tom m aso quase se perdeu. O cem itério na ilha fora da cidade não podia crescer m ais nada. Para resolver o problem a do espaço lim itado ele fora construído verticalm ente. O resultado eram corredores que se erguiam em direção ao céu, um corredor após o outro com pilhas de caixinhas retangulares. Tom m aso duvidava que a m ãe quisesse ocupar o espaço reservado para ela ao lado do seu pai. Já estava na hora de perguntar isso a ela.

– Mãe?

Ela acordou. Olhou em silêncio para ele, parecendo não o ter reconhecido.

– Sou eu.

– Estou vendo. Acha que eu sou cega?

Ele sorriu. Ela era dura na queda. Nunca relutava em dar um a boa bordoada ou alfinetada. Mas tam bém era capaz de oferecer consolo. Tom m aso respirou fundo. Não podia adiar m ais a questão.

– Mãe. Você sabe o lugar onde estão as cinzas do papai...

Nenhum a resposta. Sua m ãe ficou olhando para o teto.

– Quando você se for, um dia, é lá que você quer que fiquem as suas cinzas?

– Você passou na m ercearia? Trouxe as coisas?

– Mãe.

– Cozinhe algum a coisa para m im , m eu filho. Assim eu posso m e deliciar com o cheiro.

Ele balançou a cabeça. Ela deu um a palm adinha na m ão dele.

– Eu j á falei para a irm ã Magdalena tudo o que você precisa saber. Ela vai lhe dizer. Depois. Não se esqueça de conversar com ela.

Tom m aso tentou se levantar m as ela apertou a m ão dele com um a força surpreendente.

– Você não m e ouviu? Eu vou falar tudo para a irm ã Magdalena. Você tem de fazer o que ela lhe disser.

Ele hesitou. Lem brou-se do que a freira tinha lhe dito; algum a bobagem sobre algo que ele não devia pagar. Ele sorriu, esperando tranquilizá-la.

– Tudo bem , m ãe. Vou fazer isso.