O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 56 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 47

Helligåndskirke – Copenhague

Desta vez Niels não pôs a m ão sobre a taça quando o pastor lhe ofereceu outra dose.

– O nom e dele era Khaled Hadi. Irm ão do Abdul. – Rosenberg hesitou. Era um hom em diferente que estava sentado diante de Niels. Já não tinha olhos sorridentes nem a atitude infantil. Sua voz era m ais grave. Com o se viesse das profundezas, do lugar de onde ele ia falar a verdade. – O senhor se lem bra das fotos? Aquelas que o senhor viu no porão da igrej a?

– Dos refugiados escondidos aqui?

– Isso. O senhor fez um com entário sobre um a das fotos. Disse que havia m ais de doze pessoas nela.

Niels concordou.

– O senhor tinha razão. Eram catorze pessoas.

Niels deixou-o falar no seu próprio tem po. A experiência com entrevistas e interrogatórios o havia ensinado a entender as pausas. Elas eram a preparação para a decisão sobre um a escolha de palavras m ais interessante, quando todas as frases clássicas e respostas surradas j á haviam sido usadas.

O pastor se recostou na cadeira, respirou profundam ente e então se levantou.

– Com o o senhor sabe, em várias ocasiões eu usei a igrej a para esconder pessoas cuj o pedido de asilo tinha sido recusado. “Esconder” provavelm ente não é a palavra certa, porque o que eu fazia não era segredo. Eu usei a igrej a com o um m odo de tornar público o flagelo das pessoas que pedem asilo, com o um a plataform a para as suas causas. Com grande sucesso, num a das ocasiões.

– Quando foi aprovada um a lei especial.

– Exatam ente. Depois de m uitos artigos que saíram na im prensa foi aprovada um a lei especial que perm itia aos doze refugiados perm anecer na Dinam arca. Eu ainda m antenho contato com alguns. Um deles inclusive é o m eu barbeiro. – Rosenberg sorriu ao notar o olhar de Niels para o seu cabelo ralo.

– Nem todos eles se saíram igualm ente bem . Alguns se m udaram para a Suécia. Três deles passaram um tem po na prisão. Um deles – um j ovem do Sudão – se tornou j ogador profissional de futebol.

– E os outros dois?

– O senhor tem razão. Havia outros dois. – Rosenberg hesitou. Niels sentiu que era a prim eira vez que o pastor contava aquela história. – Um deles fugiu. Um palestino apátrida. Não tenho ideia do que aconteceu com ele.

– E o outro?

– Khaled.

– O outro era o Khaled? Irm ão do Abdul Hadi?

O pastor assentiu com a cabeça.

– O que foi que aconteceu com ele?

– Ele m orreu.

– Com o é que foi isso?

– O Khaled Hadi era um provável terrorista. – Rosenberg deu as costas para Niels ao prosseguir. – Era o que diziam os docum entos que eu recebi da polícia. E foi o que eles m e falaram quando apareceram aqui. Um provável terrorista. Algo sobre com o ele tinha sido ligado a várias ações terroristas e tinha contatos com terroristas conhecidos, em bora não houvesse confirm ação de que ele realm ente havia em preendido um a ação terrorista. Mas... – Rosenberg buscou as palavras certas. Ele se sentou novam ente. – Você sabe quem é o Daniel Pearl?

– O j ornalista que foi assassinado?

– Isso. O j ornalista am ericano que a al-Qaeda atraiu para um a arm adilha em Carachi em 2002 e...

– Ele foi degolado.

Rosenberg concordou.

– Um caso m edonho. Foi divulgado em todo o m undo.

– O Khaled teve algum a coisa a ver com esse caso?

– Eles achavam que sim . Seus colegas disseram que ele tinha encontrado o Pearl logo antes da m orte dele. Assim , supuseram que quase certam ente o Khaled havia aj udado a atrair o am ericano para a arm adilha.

– O que esse suj eito estava fazendo na Dinam arca?

– Não sei responder. Ele pode ter entrado enquanto viaj ava com um nom e falso. Não se esqueça de que a Dinam arca abrigou m uitos terroristas internacionais das listas dos m ais procurados. O grupo que estava por trás do atentado de 1993 ao World Trade Center tinha ligações em Århus.

O pastor prosseguiu:

– Eu estava sendo m uito pressionado pelo PET, o serviço de segurança e inteligência da Dinam arca. Eles não queriam que se soubesse que um provável terrorista internacional im portante estava em solo dinam arquês. Ao m esm o tem po o PET sabia que eles não podiam sim plesm ente entrar aqui e prendê-lo. Os outros refugiados iriam defendê-lo e as coisas ficariam fora de controle.

– Então estavam pressionando o senhor. Eles queriam que o senhor o entregasse?

– Exatam ente. Mas a pior parte foram os outros refugiados.

– Os outros refugiados?

O pastor respirou fundo e fez um gesto afirm ativo com a cabeça.

– Eu senti que tinha um a oportunidade de salvar os refugiados. Muitos j ornais, alguns políticos im portantes e am plos segm entos da população dinam arquesa m e apoiavam . O m om ento era favorável a m im e aos refugiados. A opinião pública estava com eçando a ficar do nosso lado. Mas o Khaled Hadi era um a bom ba-relógio sob aquela onda de solidariedade. Com o as pessoas reagiriam se soubessem que eu tinha abrigado um suposto terrorista? O apoio desapareceria instantaneam ente. Com terríveis consequências para os outros refugiados.

– Foi por isso que o senhor cedeu?

O pastor não respondeu. Ficou im óvel por um m om ento. Depois se levantou, foi até a estante e tirou um envelope de um a gaveta. Conservou-o nas m ãos enquanto se sentava.

– Eu não sabia o que fazer. Inicialm ente eu m e recusei a fazer aquilo. Um hom em perseguido havia m e pedido refúgio. Com o cristão, eu senti que era m eu dever abrir a porta da m inha casa para ele.

– A prim eira pedra – disse Niels.

Rosenberg olhou para ele.

– É isso. A prim eira pedra. Tratava-se de tudo o que eu vinha pregando havia anos.

– Mas o senhor tinha m edo de que toda a sim patia pelos refugiados desaparecesse?

– Devagar, m uito lentam ente, com eçaram a surgir na m inha m ente im agens, apoiadas pelas inform ações do PET. Eu com ecei a ver cenas: um a bom ba dentro de um ônibus na Estação Nørreport. Talvez no m etrô, no horário de pico. Ou num voo dom éstico. Muita gente m orta. Sangue correndo nas ruas. Finalm ente eu resolvi que o risco era grande dem ais. Im agine se ele recebesse perm issão para m orar no país e se tornasse clandestino. Um dia eu abriria o j ornal e leria sobre um a bom ba terrorista no coração de Copenhague. E diriam que o terrorista tinha se refugiado na m inha igrej a. Que eu poderia ter im pedido aquilo m as não fiz nada.

– Então o senhor o entregou?

O pastor assentiu com a cabeça.

– Com o um Judas eu o atraí até a m inha sala, exatam ente aqui, onde três hom ens do PET estavam à espera.

Rosenberg fez um a pausa. Estava respirando com m ais dificuldade. Finalm ente ele prosseguiu:

– Nunca vou m e esquecer do olhar que ele m e deu. Um m isto de desapontam ento, desprezo, tristeza e raiva. Seus olhos diziam : “Eu confiei no senhor”.

– E o que foi que aconteceu?

– Nada. Muitas sem anas se passaram . Os outros refugiados receberam perm issão de ficar. Mas então...

Lágrim as afloraram nos olhos de Rosenberg. Niels estava com eçando a gostar daquele hom em .

– Um dia eu recebi isto. – Ele colocou o envelope na escrivaninha.

– O que é isso?

– Abra.

O envelope tinha im agens. Fotografias. Niels suspendeu a respiração. Mãos arruinadas, atadas a um a m esa. Um hom em nu dependurado pelos braços, com um saco na cabeça. Niels se lem brou da im agem de Jesus. A últim a foto m ostrava um cadáver ensanguentado, de cabeça para baixo, dependurado em algo que parecia um gancho de m atadouro. Niels não foi capaz de dizer um a única palavra.

– Khaled Hadi. Seis sem anas depois que eu o entreguei. Fotos secretas tom adas num a prisão do Iêm en.

Niels pôs as fotos de volta no envelope.

– O Iêm en é um dos piores países do m undo em term os de tortura. A m aioria dos torturadores da Idade Média teria invej ado a criatividade deles. Corrente elétrica nos testículos. Surras com cabos. Subm ersão em água gelada. Eles põem vidro triturado na com ida e forçam as pessoas a com er essa m istura. Eu conversei com um m édico sobre... tudo isso.

Niels olhou para Rosenberg. Ele tinha cham ado um m édico. Pessoalm ente sofria todos os torm entos do cam inho para a cruz.

– Com o é que o Khaled foi parar no Iêm en?

O pastor encolheu os om bros.

– Não sei. As autoridades dinam arquesas foram com petentes no encobrim ento do caso. Nenhum j ornalista soube dele. O PET discretam ente se isentou de qualquer culpa declarando que o Khaled acabou no Iêm en depois de ter sido m andado para outro país onde ele era procurado. O PET o entregou para o país em questão – eles não dizem qual foi, m as sem dúvida eram os Estados Unidos –, que oficialm ente não usam tortura. Do ponto de vista estritam ente legal, eles têm as m ãos lim pas. Aliás há um a porção de áreas cinzentas. Mas e daí se eles o entregam para um país que não usa tortura, se esse país por sua vez o entrega a um país que tortura? Ele sim plesm ente foi passado adiante.

– Quem lhe m andou essas fotos?

– O Abdul Hadi. Ele queria que eu soubesse o que tinha feito. Queria que eu soubesse qual foi o destino do Khaled.

– Então o Abdul Hadi ia m atar o senhor para se vingar?

– Vingar. Isso.

Os dois ficaram em silêncio. O pastor olhou para a garrafa de uísque. Niels viu que ele travava um a luta consigo m esm o. Queria m ais um a dose, m as achava que não devia fazer isso. Niels conhecia bem essa luta.

– Eu não acredito que o Khaled tivesse relação com o assassinato do Daniel Pearl. Ele nunca esteve no Afeganistão. Era um bom suj eito. – Rosenberg olhou Niels nos olhos. – Eu atirei pela j anela toda a m inha capacidade de j ulgam ento.

O pastor perdeu a luta e se serviu de m ais um a dose. Pela prim eira vez Niels percebeu na pele sob os seus olhos os vasinhos sanguíneos rom pidos.

Niels ouviu vozes na praça da igrej a. Os policiais estavam conversando. Ele olhou para o pastor sentado à sua frente. Im agens se fundiam na sua cabeça: Abdul Hadi. A corrida atrás dele na Strøget. As m arcas perturbadoras nas costas das vítim as assassinadas. Os vários casos de hom icídio. Sarah Johnsson. Vladim ir Zhirkov. As pessoas boas.

Niels estava se agarrando em palha. Nada daquilo tinha sentido. Ele não conseguia fazer as peças se aj ustarem . A voz do pastor interrom peu seus pensam entos. Ele havia perguntado algum a coisa?

– Então eu não sou um dos trinta e seis j ustos.

Niels lhe dirigiu um sorriso indulgente.

– Não é provável que essa sej a a teoria que está no topo da lista da Interpol, de qualquer form a.

– Talvez devesse estar.

– Bem , talvez você estej a certo.

Rosenberg se levantou. Tinha aliviado o seu coração.

– O m eu trabalho é o oposto do seu.

– Com o assim ?

– O senhor precisa encontrar provas para fazer as pessoas acreditarem .

Niels sorriu.

– E o senhor precisa fazer as pessoas acreditarem sem provas. – Ele queria dizer algum a coisa que aj udasse o pastor a se livrar da culpa. – Talvez o PET estivesse certo – disse ele. – Talvez o senhor tenha agido certo, afinal de contas.

Um suspiro forte escapou de Rosenberg.

– Quem é que sabe o que é certo? Um fam oso poeta sufi cham ado Rum i escreveu um a história sobre um m enininho perseguido por sonhos com um m onstro do m al. A m ãe do m enino o consola dizendo que ele só devia pensar nela e no m onstro do m al indo em bora. “Mas m ãezinha”, diz o m enino, “e se o m onstro tam bém tiver um a m ãe?” – Ele sorriu. – O senhor entende o que eu quero dizer? As pessoas m ás tam bém têm m ãe, sr. Bentzon. Mães que as consolam e lhes dizem que elas estão fazendo o que é certo. Para elas, nós som os o m onstro.

 

Flocos m acios de neve caíam do céu dançando. Havia algo de despreocupado no seu m ovim ento pelo ar frio e claro. Os policiais j á iam partir. Niels se virou para o pastor.

– Não hesite em m e procurar.

Rosenberg assentiu com a cabeça. Ia dizer algum a coisa, m as um dos policiais se aproxim ou e entregou a Niels um pacote.

– O que é isto?

– É de Veneza. Chegou pelo correio da em baixada esta m anhã.

Niels abriu o pacote. Um a fita cassete com caracteres chineses no rótulo. Ao pôr no bolso a fita ele se perguntou o que ela conteria.

– Há outra possibilidade – disse Rosenberg.

Niels olhou para cim a. O pastor parecia estar congelando.

– Outra possibilidade?

– Talvez Deus estej a deliberadam ente levando os trinta e seis j ustos.

– O senhor quer dizer que Deus é assassino?

– Eu não vej o a coisa assim . Se o senhor aceita Deus, o senhor tam bém aceita que a m orte não é o fim . Pense no caso com o se Deus estivesse levando essas pessoas para casa.

– Deus está levando para casa as suas m elhores pessoas?

– Mais ou m enos isso.

As portas do carro da polícia bateram . O m otor com eçou a funcionar.

– Mas por que Deus faria isso?

O pastor deu de om bros.

– Talvez para nos pôr à prova.

– Nos pôr à prova?

– Para ver com o nós vam os reagir.

Niels deu um passo de lado para que o carro pudesse partir. Ele olhou para Abdul Hadi no assento traseiro. O que viu parecia um anim al ferido. Não um m onstro.

– Ou se vam os ter algum a reação.